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A prenda do cisne

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  Anton era um lavrador que vivia com a mulher, Rubina, e com os seus sete filhos na orla da floresta. Era um trabalhador incansável e viviam felizes. Mas, uma certa Primavera, as chuvas não caíram e o trigo morreu nos campos.

   Quando veio o Inverno, as provisões da família tornaram-se cada vez mais escassas. Em breve, os ombros de Anton estavam curvados de preocupação e a cara saudável de Rubina definhara. Até os filhos deixaram de cantar, rir e dançar, porque estavam cheios de fome.

   Todos os dias, o homem partia em busca de caça, mas regressava sempre sem ter disparado um só tiro. E, todos os dias, a mulher adicionava água à sopa de cebola, até deixar de haver sopa alguma. Quando Anton viu a família a chorar de fome, também lhe apeteceu chorar. Mas pegou na arma e partiu para a floresta, embora fosse noite escura.

   Tinha de encontrar alguma coisa para comer, ave ou coelho. Mas nos ramos negros não havia pássaros e não se vislumbravam coelhos no bosque gelado. Só se viam as pegadas de Anton. A dado momento chegou a uma colina. Sabia que não lhe restavam muitas forças: os pés estavam enregelados e mal conseguia respirar. Parou para descansar no cimo, perscrutando a neve em busca de rastos de animais.

   Desesperado, preparava-se para ir embora, quando viu um lago que ainda não tinha gelado completamente. No centro do lago, nadava um cisne de tal beleza que o homem não conseguiu desviar os olhos dele. As suas penas brancas e direitas brilhavam na água escura e, à medida que Anton olhava, o cisne parecia crescer.

   De repente, o homem começou a salivar, com a ideia da carne assada e suculenta do animal. Já via as caras dos filhos a brilhar de novo quando se sentassem à mesa para comer. Ergueu a arma e apontou o cano. Pôs o dedo no gatilho. O cisne parecia estar a olhá-lo, à espera de ouvir o tiro que o mataria. Mas Anton baixou a arma. O cisne era a criatura mais maravilhosa que alguma vez vira! Enquanto o observava, viu que o animal colocava as asas em leque, como se quisesse abraçar a noite. Anton fechou os olhos e pensou na família. E de novo ergueu a arma.

   Parecia que tinham passado horas. As penas do peito do cisne mexiam a cada batida do seu coração e o homem sentia o seu próprio coração bater. Levantou os pés cansados e molhados, deu algumas passadas e caiu de joelhos.

   — Não consigo — confessou.

   — E porque não? — perguntou uma voz, suave como penas a flutuarem na brisa.

   — Porque não posso matar a beleza. Se eu matar este cisne, a minha família tem de que comer durante uma ou duas refeições. Mas depois teremos fome de novo e a sua morte terá sido em vão.

   Anton estava demasiado cansado para se surpreender por estar a falar com o cisne ou com o vento. Estava também demasiado cansado para regressar a casa. Deixou cair a cabeça com pena da família. Com um grito, o cisne levantou as asas, ergueu-se do lago e voou em torno do homem. Começou a cair água das penas das asas. Quando a água tocou a neve, transformou-se em cristais que brilhavam ao luar. Anton pegou num e viu que era mais duro do que o gelo, mas que não se derretia no calor da sua mão.

   — Um diamante! — exclamou.

   Pegou rapidamente em todos os diamantes que jaziam num círculo em seu redor. Encheu os bolsos e dirigiu-se a uma aldeia vizinha.

   Já não se sentia cansado. Já não tinha frio. Acordou o estalajadeiro com um grito.

   — Preciso de comida.

   — As tuas colheitas estragaram-se — respondeu o estalajadeiro. — Toda a gente sabe que não tens dinheiro.

   — Tenho um diamante.

   — E onde arranjaria um pobretanas como tu um diamante? — escarneceu o homem.

   — Deixa-me entrar que já te explico.

   O estalajadeiro serviu-lhe faisão frio e tortas doces enquanto Anton lhe contava o que acontecera. A mulher do estalajadeiro arranjou-lhe um trenó com galinhas assadas, queijos, cebolas e nabos. Depois despediram-se dele e foram à procura do cisne mágico.

   Rubina abriu a porta ao marido.

   — Encontraste alguma caça? O Mischa desmaiou.

   — Não, não encontrei, mas trouxe isto. E mostrou-lhe o conteúdo do trenó.

   — Como conseguiste? — perguntou Rubina.

   Em jeito de resposta, Anton espalhou os diamantes na mesa.

   — Então agora deste em ladrão! — exclamou a mulher.

   — Não, não roubei.

   E contou-lhe o que acontecera com o cisne e como este lhe tinha dado os diamantes.

   Embora fosse de noite, Anton e Rubina acordaram as crianças e sentaram-se todos à mesa a comer devagar, a saborear o gosto da comida e a sensação maravilhosa de um estômago cheio. Os olhos escuros de Rubina brilhavam enquanto enchia as tigelas dos filhos. Anton recobrou as forças e os filhos suspiraram de contentamento quando regressaram às camas. Anton, Rubina e os filhos prosperaram, porque souberam utilizar os diamantes com sensatez. E muitos foram os que partiram em busca do cisne mágico. Mas nunca mais ninguém o encontrou…

   Às vezes, quando Anton estava sozinho na floresta, vinha-lhe à mente a imagem do cisne: via de novo o brilho das suas penas, o tom coral do seu bico e o porte magnífico das suas asas enquanto deslizava em silêncio pelo céu.

Brenda Seabrooke
The Swan’s Gift
London, Walker Books, 1995
(Tradução e adaptação)
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