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O banho Badguerd (2ª parte)

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  No souk(*) da cidade comprou roupas novas, mandou lavar as chagas e perfumou-se. Assim revigorado, apresentou-se no palácio do rei Harith como um mercador vindo de Shahabad e fez saber que desejava entregar ao príncipe, da parte da rainha Housan Banou, dois diamantes, dois rubis e duas pérolas que trazia na bolsa. O rei Harith recebeu-o muito cordialmente e convidou-o a passar algum tempo com ele. Ainda não tinha passado o primeiro dia, já o rei, seduzido pela nobreza e pelo espírito de Hatim, o estimava como a um parente próximo. Pouco tempo depois, estavam já tão ligados pela amizade, que um dia o rei Harith disse ao seu novo irmão:

   — Por que razão nunca me pedes nada, quando sinto um grande desejo de te agradar? Faz um voto, por favor, e por Alá juro atendê-lo no mesmo instante.

   — Com a tua permissão e a tua ajuda — respondeu-lhe Hatim — desejo ir ao banho Badguerd.

   Harith empalideceu e o seu rosto ficou cheio de rugas de tormento. — És louco — disse-lhe. — Nunca ninguém voltou de lá. Que juramento imprudente fiz perante ti! Agora eis-me forçado a satisfazer-te, para minha e tua infelicidade.

   — Voltarei vivo — respondeu Hatim Täi.

   Vendo o rei desgostoso e indeciso, revelou-lhe o seu nome e disse-lhe, eloquentemente, por que causa nobre se tinha posto a caminho. Então o rei Harith beijou-o, confiou-lhe uma carta para o chefe dos guardas do banho, cujo nome era Saman Idrak, e ofereceu-lhe o melhor cavalo das suas estrebarias.

   Após sete novos dias de cavalgada, Hatim chegou à fronteira onde estavam Saman Idrak e os seus guardas. Saman conduziu-o até uma porta plantada no meio da planície entre duas paredes de nevoeiro. Era tão alta que o cimo se perdia nas névoas.

   — Eis a entrada do banho Badguerd — disse-lhe. — Se a transpuseres, morrerás. Estás cansado de viver? Por Alá, suplico-te que dês meia volta, ainda é tempo.

   Hatim avançou. Na porta estava esta inscrição, quase apagada pelos ventos e pelas areias: "Esta morada, construída por ordem do rei Gayomar, é encantada. Quem cair no seu feitiço aqui ficará para sempre prisioneiro." Hatim leu-a e disse para consigo: "É então este o segredo de Badguerd. A rainha Housan Banou não queria saber mais nada. Não tenho, por isso, mais nenhum motivo razoável para ir mais longe. No entanto, sinto que não terei desvendado o verdadeiro mistério deste lugar e que as suas perigosas magias não me foram dadas a conhecer." Transpôs corajosamente a entrada, pensando entrar em qualquer palácio, mas diante dele não havia mais do que um deserto sem fim. Voltou-se. A porta desaparecera. Até ao fundo dos quatro horizontes, ondulavam vagas de areia.

   Foi-se ao acaso. Depois de um dia de caminhada, vislumbrou um homem novo que vinha ao seu encontro, trazendo um espelho que estendeu ao viajante logo que chegou junto dele. Hatim examinou-lhe o rosto e depois perguntou ao desconhecido se era o barbeiro do banho.

   — Sou — respondeu o outro.

   Hatim perguntou-lhe então o que fazia no deserto. Disse que tinha vindo à frente para o guiar e servir. Partiram, pois, juntos e caminharam até aparecer, ao virar de uma grande duna, uma enorme construção que terminava numa cúpula resplandecente.

   — Eis o banho Badguerd — disse o barbeiro.

   Entraram por uma porta baixa. No centro da sala estava uma piscina de água quente. Hatim, olhando em volta, apercebeu-se de que a porta, depois de fechada, desaparecera. Despiu-se e desceu à água. Nesse momento ecoou um estrondo assustador. As luzes apagaram-se. Hatim sentiu subir em redor de si uma onda borbulhante. Debateu-se furiosamente e as trevas, pouco a pouco, dissiparam-se. As ondas furiosas pareciam surgir das paredes, onde, contudo, não havia qualquer abertura. A água depressa atingiu o cimo da cúpula. Hatim, baloiçando como um feto, tentou agarrar-se à chave da abóbada. No exacto momento em que a mão a aflorou, um terrível ribombar de trovão ensurdeceu-o. Pensou estar a morrer, mas viu-se quase no mesmo instante rodeado pela brisa e pelo sol. Estava de novo no meio do deserto.

   Retomou o seu caminho arriscado e, após três dias e três noites de caminhada, chegou diante de um portal entreaberto.

   Entrou e achou-se num pomar de folhagem tenra e ramos carregados de frutos. No coração desse pomar, na verdura florida, corria uma fonte. Comeu e bebeu com prazer, mas não ficou dessedentado nem saciado, pelo contrário: cada fruto aguçava a sua fome e a água causava-lhe sede. Soube então que esse lugar era, na verdade, o mais cruel inferno do mundo e abandonou-o, com o coração roído de raiva e de dor.

   Para lá das árvores, avistou um palácio. Aproximou-se dele e descobriu-o povoado por estátuas de pedra. Por cima da porta estavam inscritas estas palavras: "Servidor de Deus chegado até aqui, sabe agora por que está enfeitiçada esta morada. O rei Gayomar descobriu antigamente, no regresso da guerra, um diamante tal que ninguém tinha visto até então nada de tão resplandecente nem de tamanho tão prodigioso. Para que essa pedra perfeita ficasse ao abrigo das cobiças do mundo, criou à sua volta o banho Badguerd e os seus encantamentos. No centro deste palácio está um papagaio e, num trono de ouro, um arco e três flechas. Se queres sair daqui vivo, mata a ave. Se não a atingires, serás transformado em estátua de pedra." Hatim Täi transpôs a entrada, avançou em direcção ao trono de ouro através de uma sala de pavimento brilhante e agarrou na arma oferecida e nas flechas. O papagaio esvoaçava sob a abóbada. Estendeu o arco e atirou prontamente. O papagaio, com um vivo golpe de asas, evitou a morte. Hatim sentiu-se de repente transformado em pedra dos pés até aos joelhos. "Qualquer esperança daqui para a frente está-me vedada", disse, com as lágrimas nos olhos. "Nunca atingirei este animal infernal". Pegou na segunda flecha, aplicou a corda do arco ao entalho da seta e apontou-a ao pássaro com extremo cuidado. O dardo tocou ao de leve numa das penas e perdeu-se. Sentiu o corpo ainda mais pesado. Até ao tronco era agora de pedra. Baixou a cabeça e murmurou num sopro moribundo:

   — Alá é grande, que Ele me proteja!

   Fechou os olhos e atirou, pela graça de Deus, a última flecha.

   Com um ruído de trovão, a abóbada abriu-se. O papagaio, trespassado, caiu, rodopiando como uma folha morta. Uma nuvem de pó ofuscante levantou-se do solo, apagou o pássaro, o arco e as flechas, o trono de ouro, o palácio. Então a névoa fez um redemoinho e afastou-se para o céu. Recuperada a paz, Hatim descobriu aos seus pés um diamante maravilhoso. Caiu de joelhos e agarrou-o na concha das suas mãos juntas, enquanto os heróis petrificados que tinham antes dele tentado a conquista prodigiosa retomavam a vida, vinham pôr-se à sua volta e o abençoavam pela sua libertação.

   No fundo da planície onde estavam, apareceu-lhes de súbito um ruído de cavalgaduras e gritos exaltados. Reconheceram Saman Idrak e os seus guardas. Depois de se beijarem, Hatim Täi contou-lhes a sua aventura e voltaram juntos para a cidade

[(*) Palavra árabe que significa mercado. (N. da T.)]

Henri Gougaud
A Árvore dos Tesouros
Lisboa, Gradiva,1998
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