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As crianças da mina (1ª parte)

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  — Tenham cuidado ao sair. O solo está escorregadio — avisou o professor, enquanto abria a porta pesada.

   Apesar da advertência, os alunos tiveram dificuldade em resistir a uma pequena corrida, tanto mais que tinham passado a manhã toda sentados. Iniciou-se uma perseguição, um soco derrapou no gelo fino, e a brincadeira acabou em gargalhadas.

   De todos os alunos, apenas dois não partilharam o bom humor reinante.

   — Louis e Tounet! — exclamou o professor. — O que fazem aqui? As aulas já acabaram.

   — Queríamos despedir-nos de si — murmurou Tounet.

   — Sim, queríamos — confirmou Louis. — Amanhã descemos os dois e não vamos poder voltar.

   A fisionomia do professor alterou-se e uma profunda tristeza invadiu os seus olhos.

   — Já me tinha esquecido — disse.

   Ficou calado por uns instantes e depois apertou demoradamente a mão de cada um dos rapazes.

   — Vão, meus filhos, e sejam prudentes.

   Nessa noite de Inverno, Louis e Tounet deixaram a escola para sempre. No dia seguinte, iriam descer à mina. A mina engolia todas as crianças que fizessem dez anos. Era essa a regra, tanto em Saint-Étienne, como em toda a França. Os dois rapazes pararam para saudar o cavalinho Tambour pela última vez. Fizesse chuva ou sol, o animal esperava-os sempre por detrás da cerca.

   — Adeus, Tambour, vamos sentir a tua falta.

   Depois da despedida, abalaram para suas casas, que ficavam nos arredores da cidade.

   Na manhã seguinte, às cinco horas, os mineiros partiram para o trabalho. Eram cinco os que afrontavam a noite e o vento glacial: Louis e o primo, Émile, acompanhados por Tounet, pelo pai deste, Isidore, e pelo irmão, Charles.

   — Eis-nos chegados! — resmungou Isidore, depois de uns longos minutos de caminhada.

   As instalações da mina surgiram, devagar, diante dos olhos do grupo. Por entre um conjunto de barracas, chaminés e carris de comboio, distinguiam-se as silhuetas de dois pontões. Estavam construídos na vertical dos poços e sustentavam os cabos dos ascensores.

   Cada poço tinha um nome. Louis e Tounet trabalhariam no Châtelus nº 1. A estrutura de madeira erguia-se com orgulho junto da via-férrea que conduzia a Firminy. À entrada do pontão, começava todo um labirinto de construções e de passagens.

   — Vamos perder-nos — inquietou-se Tounet.

   Mas chegaram sem problemas ao local onde cada um recebia a sua lâmpada. Charles repetiu os avisos:

   — Nunca levantem a grelha da vossa lâmpada! Se a chama ficar azulada e aumentar, é sinal de grisu.

   O grisu, um gás explosivo libertado pelo carvão, estava sempre na origem de vários acidentes. Três anos antes, por exemplo, tinha matado 70 pessoas no poço Jabin, a leste da cidade. Para evitar as explosões, as lâmpadas estavam equipadas com uma fina grelha metálica, que impedia que o grisu que houvesse na mina se inflamasse. Daí o aviso de Charles.

   De repente, sem se aperceberem, já estavam diante do elevador, à espera de que uma das cabinas subisse. Os cabos desfilavam a toda a velocidade. Ouvia-se um barulho de trovão algures.

   — Tens medo? — perguntou Tounet a Louis.

   — Não. E tu?

   — Eu também não — retorquiu o rapazinho.

   Mas, apesar do esforço para aparentar a calma, estavam ambos muito pálidos.

   Por entre um barulho de ferragens, uma cabina surgiu do poço para os levar para o fundo da mina. Mal se instalaram, a porta fechou-se com um ruído surdo. De repente, como se o chão fugisse debaixo dos pés, a cabina desceu a pique com uma rapidez incrível. Os dois rapazinhos tiveram a impressão de que o estômago ia sair-lhes pela boca.

   Um vento escaldante fustigou-lhes o rosto. Foram sacudidos com violência: da esquerda para a direita, de frente para trás, de encontro às grades, de encontro às pernas dos mineiros. O vazio abriu-se debaixo deles e Louis pensou que ia desmaiar. Depois, a cabina travou bruscamente e imobilizou-se.

   — Chegámos, rapazes!

   Viam finalmente a mina de que tanto tinham ouvido falar. Diante deles estava uma sala, da qual partiam duas galerias.

   — Toca a andar! Não estamos aqui para ver a paisagem! — disse Charles.

   As equipas separaram-se. Louis foi com Émile para o estaleiro, enquanto Tounet acompanhava o irmão às cavalariças.

   A equipa encabeçada por Émile atravessou dezenas de galerias, embrenhando-se cada vez mais no coração da terra. Quando chegou ao estaleiro, Émile disse:

   — É aqui! O tecto está quase a abater. Temos de substituir a madeira toda num percurso de dez metros.

   Louis foi encarregado de transportar as pranchas desde o armazém, a algumas dezenas de metros dali. A temperatura era insuportável e o rapaz já tinha saudades do vento glacial do exterior. Por volta do meio-dia, a refeição magra que tinham levado foi bem-vinda. Os mineiros contaram histórias como a do cavalo que se embebedara com o vinho do palafreneiro ou a do mineiro que jurava ter encontrado Belzebu numa mina de Ricamarie.

   Findas a refeição e a brincadeira, o trabalho foi retomado, no meio de uma humidade impressionante. Por volta das quatro da tarde, iniciou-se o regresso à superfície. Louis reencontrou Tounet, que tinha sido encarregado de conduzir um dos cavalos da mina.

   — O meu cavalo chama-se Apolo — disse, com orgulho.

   Os dois amigos tinham mil coisas a contar um ao outro, depois deste primeiro dia. De volta a casa, tomaram banho, a última tarefa da jornada de um mineiro. Mas Louis sabia, por ter visto outros mineiros, que a poeira do carvão não sairia só com um banho…

   As duas crianças desembaraçaram-se bem nas primeiras semanas de trabalho. Contudo, um incidente entre Louis e Ratel, um dos encarregados da mina, veio estragar o bom ambiente. Ao manobrar um tronco pesado demais, Louis magoou acidentalmente o encarregado num joelho.

   — Imbecil! — gritou o homem. — Nem vês o que fazes!

   — É o meu primito. Está a começar — desculpou-o Émile.

   — É teu primo? Então tiro-te dois francos por não o teres ensinado a respeitar os superiores. Tu — continuou, falando com Louis — vens comigo. Tenho um óptimo trabalho para um idiota do teu estilo.

   Louis foi empurrar vagões no sector oeste da mina, uma zona em que as galerias eram antigas, confusas e perigosas. Os mineiros chamavam a este sector "O Inferno". Enquanto empurrava um vagão carregado com mais de cem quilos de carvão, Louis tentava encontrar um apoio para fincar os pés no solo lamacento. O seu trabalho consistia em conduzir as carruagens desde o local de extracção do carvão até à galeria principal. Aqui, os vagões eram atrelados de forma a constituir pequenos comboios, que iriam ser puxados por cavalos até à cabina.

   "O Inferno" fazia jus ao nome: respirava-se com muita dificuldade e o calor era mais forte do que em qualquer outro lado da mina. Ainda por cima, o local tinha fama de estar cheio de grisu, devido às características do carvão aí existente. Os mineiros tinham muito cuidado com as candeias e respeitavam todas as normas de segurança, para não pôr em perigo a sua vida e a dos seus camaradas de trabalho.

   Um dia, à hora da saída, Louis e Tounet foram atraídos por um relinchar. Um cavalo ia descer ao fundo da mina. Quando se aproximaram dele, reconheceram Tambour, o amigo que os saudava sempre no caminho para a escola.

   O palafreneiro estava desesperado:

   — O animal está demasiado nervoso. Nunca mais o atamos.

   Sem proferir palavra, Tounet ajoelhou-se junto do cavalo e sussurrou-lhe algumas palavras ao ouvido.

   Depois de alguns minutos, disse ao palafreneiro:

   — Ele já está pronto para descer.

   Com efeito, e para surpresa de todos, o animal parara de relinchar e parecia agora calmo. Deixou-se atar sem nervosismo, e em breve descia para o interior do poço, viajando dentro da cabina. Tambour deixava para sempre a superfície. Nunca mais veria a luz do dia…

CONTINUA...

Fabien Grégoire
Les enfants de la mine
Paris, l’école des loisirs, 2003
(Tradução e adaptação)
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