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Os homens não batem

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  Xavier apaga a luz e ouve a respiração de Alex, a seu lado, já adormecido. Ele, todavia, não consegue deixar de pensar em tudo o que sucedeu. Ouve a voz do pai, como se ainda estivesse presente, a repetir uma e outra vez: "Os homens não batem, Xavier, os homens não batem". Olha para o amigo que, embora a sonhar, parece chorar e, sem querer, a pouco e pouco vai recordando…

   Tudo começara uns meses atrás, quando Alex e os pais se mudaram para o prédio de Xavier. Como frequentavam a mesma escola e a mesma turma, os rapazes depressa se tornaram amigos e começaram a conversar, a jogar, e a trocar confidências. Alex era fixe, divertido e, sobretudo, muito boa pessoa.

   Em casa falou-se dos novos vizinhos. A mãe referiu que a senhora lhe parecia muito tímida e calada, limitando-se a cumprimentar as vizinhas. De cada vez que o fazia, baixava a cabeça, como se temesse que lhe vissem a cara. O pai de Xavier disse que via o vizinho sempre rodeado de gente no bar ou no parque, e a jogar a petanca com um grupo de homens.

   Num domingo em que Xavier andava a passear com os pais, o pai de Alex abeirou-se deles. Saudou-os, disse que se chamava Pedro e insistiu em convidá-los para um aperitivo. Ao perguntarem-lhe pela esposa, limitou-se a responder:

   — Oh, essa! Está em casa. É melhor que não saia.

   De seguida acrescentou que Helena, a mãe de Alex, não gostava de andar na rua.

   Esta informação, e o tom depreciativo em que foi dita, não agradou aos pais de Xavier pelo que, amavelmente, declinaram o convite.

   Cada dia Xavier simpatizava mais com Alex. Muitas vezes faziam os deveres juntos em casa de Xavier e divertiam-se a jogar PlayStation ou a ver um DVD, que mais tarde comentavam com os colegas. A única coisa que Xavier estranhava era que Alex nunca convidasse ninguém para ir a sua casa.

   Desde há algum tempo que Xavier tinha começado a notar coisas muito estranhas: Alex quase não falava e andava como que assustado. Às vezes, parecia até meio atordoado, tinha equimoses nos braços e nas pernas, e dizia sempre não se lembrar de como tinham aparecido.

   Uma tarde em que combinaram brincar juntos, Alex atrasou-se e Xavier foi ter a casa dele. Quando Alex atendeu, Xavier teve uma surpresa desagradável. O amigo tinha os olhos vermelhos e um hematoma ainda recente na cara. Quando Xavier lhe perguntou o que tinha sucedido, o amigo, muito nervoso, só respondeu:

   — Nada. Vamos embora, anda.

   Xavier achou que era a marca duma bofetada, mas não insistiu mais. Ao fundo do corredor, sentada num sofá, Helena chorava e apertava o nariz com um lenço ensanguentado. Foi tal a angústia que notou na cara de Alex que Xavier não contou nada disto aos pais. Procurou distrair o amigo e fazer com que se divertissem juntos.

   Já tinha esquecido este incidente quando, num sábado, ouviram umas pancadas tremendas vindas do andar de Alex. A princípio julgaram que estavam a mudar móveis e qualquer coisa pesada tivesse caído ao chão. Contudo, os berros de Pedro ressoavam por toda a casa. Quando ouviram um bater de porta, os ruídos cessaram. Xavier foi à janela e viu o pai de Alex a ir-se embora.

   Alguns vizinhos saíram para o patamar a fim de se inteirarem da causa do escândalo. Os pais de Xavier trocaram olhares muito preocupados e perguntaram ao filho se tinha notado alguma coisa estranha no amigo. Xavier, um tanto assustado, contou-lhes então o que vira naquela tarde. Quando o filho acabou o relato, o pai virou-se para a mãe e disse simplesmente:

   — Este homem não me agrada nada.

   Um dia, Xavier e os amigos começaram a falar dos problemas que tinham em casa e, a rir, iam comentando o que os pais diziam. Alex permanecia calado a olhar para uns e outros, até que Jorge, que era muito atrevido, o inquiriu directamente:

   — E em tua casa, Alex, quem manda mais, o teu pai ou a tua mãe? Com quem te dás melhor?

   Após um curto silêncio, os rapazes continuaram a falar e a rir, mas Xavier viu como Alex ficara muito corado e incomodado.

   Então, Xavier disse não saber quem é que mandava mais em sua casa, pois tanto o pai como a mãe portavam-se da mesma maneira e não via nenhum deles a querer ser mais importante do que o outro.

   — "Tem de haver igualdade" é o que o meu pai diz. "Tem de haver igualdade entre o homem e a mulher".

   — Mas isso está mal. Um homem tem de vestir as calças. O meu pai diz que se não o fizeres, não és homem nem és nada — respondeu-lhe Alex, enfrentando-o com o olhar.

   Xavier não replicou, mas a verdade é que não sabia o que Alex queria dizer. Nessa noite, ao jantar, narrou aos pais o que tinha sucedido e perguntou-lhes o que Alex queria dizer com aquilo. Achava graça à frase, porque os homens usam sempre calças, mas as mulheres também o fazem muitas vezes. Os pais riram-se, mas logo se calaram e olharam para ele com ar sério.

   O pai disse, então:

   — Olha, Xavier, a nossa sociedade não educa os homens como devia. Fazem-nos acreditar que somos superiores às mulheres apenas pelo facto de termos nascido homens, entendes? E isso é mentira. Além de que nos enganam ao dizer que somos mais fortes do que elas, mais inteligentes e melhores em tudo. E também se diz que somos menos homens, mais fracos, se formos afectuosos com a nossa mulher, se lhe contarmos os nossos problemas, lhe pedirmos conselhos e ajuda, e se mudamos a nossa opinião depois de falarmos com ela.

   — Mas eu não entendo isso de ter de vestir as calças.

   — Isso — interveio a mãe — é uma maneira de dizer que os homens devem mandar nas mulheres para se afirmarem como homens, serem másculos…

   — É uma tolice, Xavier — esclareceu o pai. — Não é uma parte do corpo que te faz homem, como também não o é gritar, dar murros, nem dizer palavrões ou bater. Os homens, os que são verdadeiramente homens, não batem — disse-lhe o pai muito sério. — Só batem os cobardes que se aproveitam da força, ou até do carinho com que os tratam. Lembra-te sempre disto, Xavier: os homens não batem…

   — Mas o pai do Alex diz que um homem… que o que um homem deve fazer…

   Não chegou a acabar a frase. O pai sorriu:

   — Xavier, o pai do Alex não sabe o que diz. Desconfio que não deve ser muito boa pessoa. E, se não for uma pessoa boa, muito menos poderá ser um bom homem, nem simplesmente um homem, entendes, filho? Mesmo que tenha… já sabes.

   Ambos olharam para a cara de desagrado que a mãe fazia e os três desataram a rir.

   Xavier não percebeu bem tudo, mas não quis fazer mais perguntas. Como também não as fez no dia em que a mãe comentou que Helena parecia ter tido um acidente, já que estava toda magoada e com um olho negro, tendo acrescentado:

   — É pena que não tenha cá família, nem ninguém que a ajude.

   O pai de Xavier nada disse e continuou a comer, embora, de vez em quando, movesse a cabeça em sinal de preocupação.

   As coisas entre os dois amigos continuaram no mesmo pé, até que um dia Xavier confidenciou a Alex que gostaria de conhecer o quarto dele, de ver os seus livros e brinquedos. Alex olhou-o devagar, tardando muito a responder, até que por fim lhe disse que perguntaria aos pais se podia convidá-lo a ir lá a casa. Três dias depois, muito contente, disse-lhe que a mãe os esperava aos dois para lanchar e comentou que o pai estava de viagem.

   O lanche foi óptimo e Xavier achou a mãe de Alex muito simpática. Helena brincou com eles a jogos e adivinhas, contou-lhes histórias, e falou-lhes de livros com tanta graça que os três riram como bons amigos.

   De súbito, ouviu-se o barulho da chave na fechadura. Apagou-se o sorriso da cara da mãe do Alex e as mãos começaram a tremer-lhe como se estivesse doente. Levantou-se logo e, como doida, começou a andar de um lado para o outro. Alex foi para a beira dela, acariciou-lhe as mãos suavemente e ambos ficaram muito quietos quando o pai entrou na sala. Pedro olhou para os três e, dirigindo-se à mulher, ordenou-lhe:

   — Faz-me o jantar.

   Depois acercou-se de Alex e fez-lhe uma festa na cabeça. Xavier achou curioso ver como o seu amigo se derretia todo com a carícia do pai, como se fosse um cão sedento de carinho. Mas Alex tinha os olhos humedecidos, como que assustados.

   Com o tempo, as coisas foram de mal a pior. No apartamento de Alex havia pancadas e berros cada vez mais frequentemente, até que um dia os vizinhos, alarmados, reuniram-se para decidir o que fazer. Então, Xavier soube o que se passava: o pai de Alex era uma pessoa violenta e batia na mulher. Xavier depreendeu que ele também maltratava o filho: essa era a causa dos hematomas de Alex, do medo que vira no seu olhar e que lhe causava tremuras no corpo.

   Quando regressaram a casa, Xavier contou aos pais o que vira naquela tarde. Eles falaram com ele mais abertamente.

   — Há cobardes que batem na mulher e nos filhos para esquecer os seus problemas e julgarem-se mais homens — disse-lhe o pai. — O que não sabem, Xavier, é que com cada pancada mostram a sua fraqueza e cobardia, porque, sabes, só batem em quem acham que é mais fraco do que eles.

   — São como monstros, Xavier — acrescentou a mãe — porque não raciocinam, não pensam, e não amam ninguém. Só querem controlar a vida dos outros por acharem que assim controlam a sua, nem que para isso tenham de usar a violência: berros, insultos, pancadas, bofetadas, pontapés, e até armas. Como diz o teu pai, os homens, aqueles que são na verdade homens, não batem. Só os cobardes é que o fazem.

   — Mas eu não entendo, mãe. Porque é que a Helena continua a viver com esse bruto? Gosta que lhe batam? Porque não se separa dele como outras pessoas fazem? É por não gostar do Alex?

   — Ninguém gosta de ser insultado e agredido, filho — respondeu-lhe a mãe. — A Helena continua com ele porque está só e não sabe o que fazer, nem para onde ir; porque tem medo por causa do filho de quem gosta mais do que de si mesma; porque tem vergonha de reconhecer, diante dos pais dela, que o homem que escolheu para companheiro é um canalha violento que a maltrata. Nem sequer sabe se eles a iriam compreender… Enfim, há muitas razões e bem complicadas. Às vezes, a vida, Xavier, é muito difícil para as mulheres. E mais ainda se estão sós e têm filhos para sustentar.

   Enquanto recordava tudo isto, Xavier virou-se para a cama de Alex, agora a dormir descansado, e pensou no horror por que passara o amigo nessa mesma manhã. Voltavam ambos do parque quando, ao chegar a casa, viram uma ambulância, um carro da polícia e um grupo de pessoas a olhar para a entrada do prédio. Nesse momento, Pedro saía escoltado por dois agentes e, instantes depois, vinha Helena numa maca. Alex, branco de angústia, correu para a mãe, que, toda magoada, a chorar, e com um olho negro, sorriu para ele e sussurrou-lhe:

   — Alex, meu filho, agora tudo se vai arranjar, prometo-te.

   Não o pôde abraçar, porque o marido tinha-lhe partido também um braço.

   Antes de adormecer, Xavier pensou em Helena, em Pedro e no amigo Alex que, ao que parecia, iria agora viver com a mãe para a terra dos avós. Pensou também em si e nos seus pais. Queria ser um homem, mas um verdadeiro homem. Os seus olhos foram-se fechando enquanto lhe parecia ouvir ainda a voz do pai: "Xavier, os homens não batem".

  

Beatriz Moncó
Los hombres no pegan
Barcelona, Bellaterra, 2005
(Tradução e adaptação)
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