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Portugal está longe de ser um país amigo das crianças
23-05-2011
Jornal da Madeira
  Jornal da Madeira - Se fosse possível fazer um breve retrato das relações entre adultos e crianças, pais e filhos, na actualidade, acha que alguém ficaria mal na fotografia?

Eduardo Sá - É possível. O que é preciso antes de tudo é que nos adequemos às características das crianças, para crescemos com elas, para sermos todos felizes.

Há também que ajudar os pais a perderem muitos medos e a ficarem soltos de alguns slogans que, em muitas circunstâncias, parecem evitá-los, como por exemplo o facto de não terem tempo para serem pais.

JM - E não é verdade, a falta de tempo?

ES - O não ter tempo não é desculpa. Somos os pais que até hoje tiveram mais privilégios sociais e económicos, cujo tempo tem sido acarinhado aos mais diversos níveis. Temos máquinas para tudo, comunicamos com uma facilidade estonteante... . O nosso problema não é faltar tempo, é o modo como o gerimos e as hierarquias das nossas responsabilidades. Porventura somos mais cuidadosos com compromissos sociais do que com os nossos filhos. As crianças não precisam de muito tempo dos pais, mas de pais que, quando se disponibilizam para o serem, conseguiam sê-lo com a qualidade que têm dentro de si e que só valorizam mais tarde, por exemplo, quando se tornam avós.

JM - Como avalia a relação da escola com as crianças? Dá nota positiva? ES - Acho que somos muito mais ensinados a desprezar os nosso sentimentos do que a valorizá-los. Mais ensinados a repetir do que a recrear. A escola tornou-se quase esquizofrénica, porque premeia os que repetem e castiga os que copiam, quando uma e outra não estão muito longe entre si. Somos mais educados para ter uma carreira de sucesso e isso não é o mais importante na vida. O essencial é ser feliz e descobrir o código para lá chegar. Fomos mais educados para sermos sabichões, muito mais do que sábios. Transformámos a escola, por imposição dos pais, numa espécie de linha de montagem de jovens tecnocratas de sucesso, criando uma atmosfera "rasca" em relação ao crescimento e depois deitamos as mãos à cabeça porque percebemos que levámos toda a gente ao engano. Não é admissível que as crianças entrem na escola sábias e saiam da escola mestres, isto é o cúmulo da publicidade enganosa. Ser mestre aos 23 anos sem experiência de vida é rigorosamente impossível. Acho que andámos a criar a ideia de um mundo fácil, a levar as crianças ao colo como se qualquer insucesso fosse prejudicial quando, no fundo, errar é aprender. Temos que parar de uma forma séria e simples e saber o que queremos de facto da escola.

Família e escola "zangadas"

JM - A escola mais centrada na pessoa?

ES - É necessário que a escola case a singularidade do indivíduo com a pluralidade que o conhecimento acaba por nos trazer. Ainda continuamos presos a uma ideia positivista do mundo, em que o número é privilegiado em relação à palavra dada, mas o importante é o modo como compartilhamos uns com os outros, para nos educarmo-nos mutuamente; esta é a atitude mais próxima da realidade, mais do que aquela que hoje a escola e a família levam a efeito; acho que a escola e a família andam zangadas, cada uma anda a puxar a crinaça para o seu lado.

Boa educação e escolaridade

JM - Nestas circunstâncias, o futuro está comprometido?

ES - Está comprometido desde sempre, mas o futuro será seguramente melhor. Agora, o que temos de percebe é que pessoas mais escolarizadas não são por inerência pessoas mais educadas. É muito importante que tenhamos dado um grande impulso à escolaridade; é importe que o mundo se tenha democratizado de dentro para fora da escola, mas acho que é urgente reabilitarmos a boa educação que torna as pessoas mais simples, melhores e mais bonitas.

JM - A boa educação passa pela admissão de "mentira" e "castigos", como defende numa das suas obras? ES - Sim, desde que os pais sejam castigados quando mentem. Acho que eles mentem quando condescendem com algumas mentiras que todos nós instituimos. Por exemplo, foram os pais que criaram a ideia de uma relação politicamente correcta que é uma forma urbana de dizermos o quanto toleramos a falsidade uns dos outros. Portanto, acho muito bem que castiguem, desde que os pais se inibem eles próprios de mentir.

Portugal não é um país amigo das crianças

JM - O facto de, hoje em dia, haver crianças isoladas nos apartamentos, frente a um computador, enquanto os pais trabalham para a sobrevivência da família, é preocupante?

ES - Continuo a achar que Portugal ainda está muito longe de ser um país amigo das crinças. Um país amigo é aquele em que a política da família e a dedicada à criança estão na primeira linha das discussões políticas. Houve países no mundo que fizeram grandes milagres sociais e económicos à boleia de uma política da família; considero sensato e sábio que seguissemos os bons exemplos. Claro que não fico contente que as pessoas sejam deixadas ao seu próprio cuidado; ficaria mais descansado que os horários parciais fossem mais acarinhados, que o horário flutuante tivesse outro protagonismo e que o papel dos avós tivesse outro tipo de apoio. Não acho, sequer, que a alternativa à solidão doméstica das crianças passe por elas ficarem mais tempo nas escolas. Temos que encontrar o equilíbrio entre a escola, que é um sítio magnífico se for uma sala de estar, e a casa, que é um sítio ainda melhor se as crianças puderem, alternadamente, ter os pais como o melhor dos brinquedos.

Uma criança ligada, todos os dias, ao computador é uma criança que aprende a crescer numa espécie de solidão assistida e esta não é amiga do desenvolvimento. O máximo que podemos conseguir com isso é mostrarmos às crianças que há caminho para serem felizes e, ao mesmo tempo, empurrá-las para a maior das depressões, não é sensato.

JM - Há mentalidade preparada para isso ou a "crise" de convivência entre "adultos e miúdos" está mesmo difícil?

ES - Na natureza, como na vida, a crise é sempre amiga do desenvolvimento. Aquilo que nos mortifica por dentro não são as crises, mas os impasses. Acho que andamos todos numa espécie de impasse, mais ou menos eufórico, e esquecemos sobretudo os valores humanos. As crises ajuda-nos a esclarecer quem é que temos ao nosso lado. Se temos uma família ou se temos uma miragem; se temos alguém que nos ama ou uma pessoa que, no fundo, se limita a ser uma espécie de bom companheiro e nada mais. A crise e todos estes desafios e movimentos turbulentos que, em termos sociais e sobretudo económicos, estamos a viver, ajuda-nos a perceber que andamos o tempo todo a mentir, ao contrário daquilo que costumamos dizer às crianças. Mas, não tenha dúvida, os pais são pessoas profundamente sábias. A única coisa que me preocupa, muitas vezes, é que eles escutam mais facilmente a opinião dos técnicos do que a si próprios. Além disso, acho que nas escolas devia ser quase obrigatório haver um "quadro de honra" para a pessoas faladoras porque, nessa altura, o problema das crises morria por si, pois, quando falamos uns com os outros, tornamo-nos obviamente mais interessantes.

Educação infantil deve ser prioridade

JM - Se estivesse nas suas mãos fazer uma lei para as crianças e a família, o que elegia como prioridade?

ES - A primeira de todas seria sobre a educação infantil. Temos que perceber, de uma vez por todas, que não faz sentido continuar a separar educação infantil e ensino obrigatório. Todos nós temos a consciência nica que a educação infantil é a porta aberta com que se pode namorar o ensino obrigatório. No dia em que neste país a educação infantil seja tendencialmente gratuita, para todos, obviamente que nós resolvemos duas grandes preocupações: em primeiro lugar, a crise da natalidade; uma criança custa muito dinheiro aos pais por dia e, se estes não têm muitas posses materiais, a educação infantil aos preços em que é praticada impossibilita ter dois ou três filhos entre os 0 e os 6 anos. Por outro lado, com a educação infantil resolveríamos muitos problemas da escola. Portanto, eu começaria por fazer esta profunda revolução. Não acho que seria tão difícil, pelo contrário, está mais ao acesso de todos o que pode parecer e, depois, faria pequenos arranjos; por exemplo, proibia a maior parte das aulas de 90 minutos, os recreios de 10 minutos e obrigava, quase por "decreto", que se "brincasse" uma actividade todos os dias e por aí adiante. Como se vê, é fácil pôr as crianças a gostar da escola; o mais difícil é pôr a escola a gostar das crianças.

O colo faz bem às pessoas

JM - E que dizer do amor e do colo?

ES - São imprescindíveis. O colo faz bem às pessoas, ajuda-nos a crescer. Nunca vi ninguém deprimir-se pelo colo em excesso, mas já perdi a conta às pessoas que vejo todos os dias deprimidas por falta de colo. São três os "condimentos" para termos crianças saudáveis: colo o mais possível, quanto baste de autoridade e o mais possível de autonomia.

"É bom que as crianças mintam. É bom que resistam à sopa e que resmunguem de manhã. É bom que as crianças brinquem mais do que estudam. É bom que as crianças desmanchem as coisas para as arrumarem, de seguida. E que sonhem acordadas.E que tenham más maneiras para os pais. Afinal, bons pais são aqueles que crescem com a ajuda das más maneiras dos filhos", diz Eduardo Sá no livro Más maneiras de sermos Bons Pais. O autor nasceu em Leiria, em 1962. É psicólogo, psicanalista e professor de Psicologia clínica, em Lisboa e Coimbra. Desde há muito que colabora com diversas publicações, pois, percebeu "que era mais fácil escrever uma tese do que um artigo que toda a gente pudesse ler".Tornou-se popular com os títulos: Crianças para Sempre ou A Vida não se aprende nos Livros, entre outros.

Eduardo Sá escreve para "dar voz"

JM - O que pretende comunicar com os seus livros?

ES -O que gosto mesmo é de colocar uma espécie de abertura fácil no coração dos pais que passam a vida de coração apertado, até ao último botão, e isso preocupa-me. Acho um desperdício que muitos pais se tornem efectivamente as boas pessoas que eles conseguem ser só quando são avós. A minha obrigação é explicar às pessoas, de forma simples e clara, que elas têm muito mais argumentos do que porventura pensam e, depois disso, fazer as legendas ou pequenas ligações para o comportamento necessário, entre uns e outros. Um livro serve para nos perdermos nele e para nos encontrarmos. Não digo nada de novo, sobretudo aquilo que os pais por experiência própria já sabem.

JM - Tem obtido sintonia?

ES - Às vezes as pessoas reagem de forma crispada, mas percebem que falamos de olhos nos olhos e não de forma paternalista. E depois de interpeladas sentem espaço para ter voz e gosto de provocar; provocar é dar voz. Portanto, a minha ideia é provocá-las o mais que posso e depois permitir-lhes que se encontrem na voz que as vezes elas não têm. A mim preocupa-me muito que as famílias falem pouco, que os pais falem pouco com a escola e vice-versa. Um livro é uma forma comovente, engenhosa, às vezes até divertida, de pôr pessoas a falarem entre si, umas com as outras, mais do que falarem comigo.

EDUARDO SÁ proferiu a semana passada uma conferência no Funchal, a convite da Associação de Pais do Colégio da Apresentação de Maria.


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