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O Zé Botarras (2ª parte)

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  Formou-se uma roda de jovens em torno do cartaz e, pelas expressões, ninguém parecia reconhecer a página. Apenas José Miguel examinava com atenção o texto, detendo-se nalguns nomes que lhe pareciam familiares. Mas sentia-se comprometido naquele grupo e afastou-se. Pediu à funcionária que lhe facultasse uma fotocópia da página e foi para o lugar. D.ª Alda tinha pensado em tudo – havia um pequeno número de cópias para o concorrente mais reflexivo.

   O Wilt de Tom Sharpe ficava para mais tarde. Tinha de resolver primeiro este enigma. Pegou na folha, puxou de um lápis e começou a sublinhar palavras; de vez em quando levantava a cabeça, voltava a página, lia do outro lado, mordia na ponta do lápis e, numa mordidela mais profunda, a cara iluminou-se-lhe de revelação. Teria descoberto? Levantou-se, dirigiu-se às estantes de literatura estrangeira e começou a varrer com os olhos os títulos. Parecia ter encontrado a prateleira certa e, com o auxílio do dedo, separava os livros um a um. Tirou três: o primeiro tinha as páginas 31/32, o segundo também e o terceiro... lá estava! Sem a dita folha. O sapatinho de cristal tinha acabado de entrar no pé! Satisfeito, dirigiu-se ao gabinete da bibliotecária e bateu delicadamente à porta.

   À sua frente, D.ª Alda tinha o jovem simpático do dia anterior. Com o livro na mão.

   – Parece que descobri! – limita-se a dizer o rapaz.

   – Bravo!... Os marginais de S. E. Hilton. Já tinhas lido?

   – Há uns tempos atrás, li os dois livros da autora publicados em português: Tex e Juventude inquieta. Este ainda não. Foi através de algumas palavras das páginas que cheguei lá.

   – Explica-me como foi...!!! – D.ª Alda esperava que ele se identificasse.

   – José, José Miguel. Repare aqui na página 31 – e mostrou-lhe na página rabiscada o fio da sua dedução – ’Tá a ver aqui estas palavras inglesas... Cherry... Ponyboy... só podia ser ficção inglesa... ou então americana! Mais cá em baixo... aqui está rodeo, era americana! Depois o estilo de escrita é vivo, cheio de diálogos e coisas assim... tinha de ser livro recente e para malta, digo, gente da minha idade. Depois fala-se aqui de seitas de jovens que lutavam nas ruas e isso fez-me lembrar um filme do... Coppola... Francis Ford Coppola, que vi recentemente na televisão, por sinal baseado neste livro. Foi nessa altura que fui à estante e não foi difícil dar com ele... precisamente aquele que não tinha lido!

   – Brilhante, José Miguel! Amanhã podes passar por cá para receberes o prémio. Um livro, se não te importas.

   Não se importava nada. Agradecia-lhe muito. Foi satisfeito para o lugar e mais satisfeito ficou quando se encaminhava para casa, meia hora mais tarde. É que tinha visto a Rosa e tinham-se cumprimentado. Ela trazia o cabelo apanhado, como ele gostava, e a rapariga prometera-lha um poster dos AC-DC de que ele não gostava, mas ela pensava que ele gostava. E ele precisava de gostar do que ela e os amigos gostavam para todos gostarem dele. E ele gostava de livros (alguns, claro!), e os outros... não!

   Este conflito de gostos dilacerava-lhe a cabeça. Quem era ele, afinal? O que os outros esperavam dele ou o que ele próprio sentia? Será que podia continuar a ser dois ao mesmo tempo? Tinha mesmo de se esconder dos outros para ler? Ser... parecer... "to be or not to be"... chegado a esta essência filosófica, começou a sentir-se mais forte, com uma personalidade para afirmar. A começar por casa. Nessa noite ao jantar, afirmou-se na carne estufada. Estava rija e demasiado apaladada. Não comia!

   Quando se encaminhava mais tarde para casa do Sampaio, afirmou-se numa pedra e chutou. Azar. Não lhe calculou bem o tamanho e, apesar das suas botarras, magoou-se no dedo grande. Sentou-se num banco ali perto para amansar as dores e repensar as suas afirmações.

   Ele queria ser ele próprio mas... a carne assada da mãe não tinha culpa e muito menos a pedra. Onde estava, afinal, o seu problema? Olhou para as horas. O amigo não gostava de esperar. Juntou-se ao Sampaio, ao Teixeira e ao Alferes e a todos os outros que apareceram no Café Estrelinha. As conversas do costume, que são, afinal, as da sua idade. Para quê debates?!

   – Agora vamos todos p’rà garagem do Serafim! Um assalto! O gajo tem lá música da pesada.

   E foram e José Miguel gostou. A sua mãe um pouco menos, porque esteve acordada até às duas da manhã. No outro dia teve aulas até às 17.30. Ainda passaria pela biblioteca para ver o livro que a D.ª Alda lhe reservava de prémio. Desculpou-se como pôde com os amigos e apressou o passo. Junto ao largo que dá acesso à biblioteca, avistou a Rosa que vinha na mesma direcção. Parou, voltou para trás e... uf!... perdeu-a de vista. Que encontro mais inconveniente!

   Subiu, enfim, as escadas e dirigiu-se para o gabinete da bibliotecária. Lá estava sobre a secretária o embrulho da sua prenda. Os marginais, que tinha descoberto no dia anterior.

   – Como foi o único da autora que ainda não leste, achei que irias gostar – diz-lhe ela.

   E tinha mesmo gostado. Marginais. Marginais como ele, afinal, que fazia dos livros um ghetto clandestino. Tinha de... Alto aí! Através do separador envidraçado do gabinete, avistou um rabicho conhecido na sala de leitura. Era a Rosa. A Rosa na biblioteca. José Miguel nem queria acreditar. Saiu do seu ghetto e dirigiu-se ao lugar da rapariga. Sentou-se à sua frente. Ela olhou-o espantada:

   – Tu por aqui?! Olha que não te trouxe o poster! Não fazia a mínima ideia de te encontrar aqui!

   – Esquece o poster. Afinal, já não o quero. Já não cabem nas paredes e preciso até de limpar o quarto. Ainda demoras aqui?

   – Um bocadito. Preciso de procurar um livro na estante para levar para casa – respondeu a Rosa sem entender muito bem aquela do poster.

   – Se quiseres este, empresto-to. Acabo de o receber agora como prémio. Foi a bibliotecária que mo deu agora mesmo.

   – Mas vens muito aqui? – Rosa cada vez o entendia menos.

   – Sim, sim... – e dava pormenores – Olha, no outro dia, até me esqueci das horas e foi a funcionária que...

   Pelo caminho para casa, José Miguel foi-lhe revelando a sua faceta escondida. O seu outro lado secreto, e Rosa até achava aquilo engraçado. Despediram-se com um aperto de mãos mais prolongado. Ao jantar mastigou bem a carne, desta vez sim, um pouco rija! A caminho da casa do Sampaio, já não chutou em pedras. É que tinha acabado de engraxar as botas. O Zé Botarras!

Natália Caseiro
Os devoradores de livros
Leiria, Editorial Diferença, 1999
(Excerto)
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