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O Herói do papel

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    Assim que o sol derreteu os grãos de neve escuros, e lavou a água suja e todo o lixo doméstico depositado durante o Inverno – trapos, ossos, vidros partidos –, começaram a sentir-se no ar um sem número de odores, sobrepondo-se a todos eles o cheiro doce da terra no início da Primavera. Foi então que Genia Pirapletshikov saiu para o pátio.

  O seu nome era tão ridículo que ele, desde que aprendera a escrever, o sentia como uma humilhação. Para mais, Genia tinha, de nascença, um problema qualquer nas pernas, o que o fazia saltar de uma forma esquisita quando andava.

  A acrescentar a tudo isso, o nariz, continuamente entupido, obrigava-o a respirar pela boca, de forma que os lábios estavam sempre secos. E Genia tinha de os lamber constantemente.

  Para completar, não tinha pai. É certo que metade das crianças não tinha pai mas, ao contrário das outras, Genia não podia dizer que o pai havia morrido na guerra: ele nunca tinha tido um pai. Tudo isto fazia Genia sentir-se muito infeliz.

  Saiu, portanto, para o pátio, ainda meio convalescente das suas maleitas de Inverno e de Primavera, com um gorro de lã enfiado na cabeça, por cima de um lenço, e um longo cachecol verde enrolado à volta do pescoço.

  O sol estava incrivelmente quente. As meninas tinham descido as meias, enrolando-as à volta das pernas como salsichas. A senhora da casa número sete, com a ajuda da neta, arrastara uma cadeira para debaixo da janela, e ali se encontrava sentada, com a cara virada ao sol.

  O ar, a terra, tudo estava cheio de vida e emanava força, principalmente as árvores despidas, de onde, a qualquer momento, pequenas folhas rebentariam alegremente.

  Genia estava parado no meio do pátio, escutando, impressionado, os magníficos sons à sua volta. Um gato gordo atravessava o pátio na diagonal, colocando, hesitante, as patas na terra molhada.

  A primeira bola de lama caiu exactamente entre o rapaz e o gato, que curvou as costas e deu um salto para trás. Genia estremeceu. Chapiscos de lama bateram-lhe com força na cara. A segunda bola acertou-lhe nas costas, e ele nem esperou pela terceira: desatou a correr aos saltos em direcção à porta de casa. Um dito trocista perseguiu-o como uma lança sonora: Genia Manco, vê se te assoas!

  Voltou-se. Kolka Kliukvin atirava as bolas de lama, as meninas riam-se e por detrás deles, encontrava-se aquele a quem todos obedeciam, inimigo de quem não pertencesse ao seu grupo: o astucioso e destemido Shenka Aityr.

  Genia correu para a porta de casa. A avó vinha naquele momento a descer as escadas, uma avó minúscula, com um chapéu castanho na cabeça. Ia passear no jardim. Uma pele de raposa já gasta, com olhos de âmbar luzidios, repousava-lhe sobre os ombros.

  À noite, quando Genia ressonava por detrás do biombo verde, a mãe e a avó ficaram bastante tempo sentadas à mesa.

  — Porquê? Porque é que andam sempre a fazer-lhe mal? — perguntou por fim a avó num sussurro.

  — Acho que devíamos convidá-los para o aniversário do Genia — respondeu a mãe.

  — Estás maluca! — disse a avó assustada. — Aquilo não são crianças, são bandidos!

  — Não vejo outra saída — retorquiu a mãe mal-humorada. — Temos de fazer um bolo, alguma coisa para comer, e preparar-lhe uma festa de anos a sério.

  — São uns bárbaros e uns bandidos. Vão levar-nos tudo o que temos em casa — teimava a avó.

  — Ora diz lá, o que é que tens que possam roubar-te? — perguntou a mãe friamente.

  A senhora não respondeu.

  — Os teus sapatos velhos, talvez?

  — Ora, os sapatos! — a avó soltou um suspiro pesado. — O rapaz faz-me pena.

  Passaram-se duas semanas. Chegara uma Primavera suave e amena. A lama secara. O pátio ficou coberto de erva e, embora os moradores se esforçassem por sujá-la novamente, ela continuava limpa e verde.

  As crianças brincavam de manhã à noite aos “polícias e ladrões”. As cercas estavam pintalgadas de setas de giz e carvão, o sinal dos ladrões à solta.

  Há já duas semanas que Genia ia à escola. A mãe e a avó trocavam olhares entre si. A avó, supersticiosa, cuspia por cima do ombro – pelo sim e pelo não. O intervalo entre duas doenças geralmente não durava mais de duas semanas.

  De manhã, a avó levava o neto à escola. Depois das aulas, esperava por ele no átrio, enrolava-lhe o cachecol verde, pegava-lhe pela mão e levava-o para casa.

  Na véspera do dia de anos, a mãe disse a Genia que nesse ano iam fazer uma festa a sério.

  — Convida quem tu quiseres da tua sala e do pátio — sugeriu.

  — Não quero ninguém. Por favor, mãe, não! — pediu Genia.

  — Tem de ser — respondeu a mãe laconicamente, e o estremecer das sobrancelhas disse a Genia que nada a demoveria.

  Ao anoitecer, a mãe desceu ao pátio e convidou as crianças para o dia seguinte. Falou ao grupo inteiro, sem diferenciar ninguém; só a Shenka Aityr é que se dirigiu em separado:

  — E tu também, Shenka.

  Ele olhou-a com uns olhos tão frios e adultos, que ela ficou embaraçada.

  — E porque não? Eu vou — respondeu, impassível.

  E a mãe foi começar a preparar a massa do bolo.

  Genia olhava tristemente em volta do quarto. O que mais o preocupava era o piano preto e brilhante. De certeza que mais ninguém tinha em casa uma coisa daquelas. O armário dos livros e as partituras na prateleira ainda se desculpava… Mas Beethoven, aquela horrível máscara preta de Beethoven! De certeza que alguém iria perguntar maldosamente: “Aquele é o teu avô? Ou o teu pai?”

  Genia pediu à avó que guardasse a máscara. A avó ficou admirada.

  — Mas o que é que te incomoda nela agora? Olha que a tua mãe recebeu-a de presente, da professora!

  E avó contou, pela infinitésima vez, como a mãe era uma pianista de talento e como, se não tivesse sido a guerra, teria acabado o conservatório…

  Sobre a mesa posta havia, pouco antes das quatro, uma terrina com salada de batata, pão torrado com arenque, e pirogas com recheio de arroz.

  Genia estava sentado à janela, de costas voltadas para a mesa e tentava não pensar que dali a nada os seus barulhentos, alegres e irreconciliáveis inimigos entrariam por ali dentro… Parecia completamente mergulhado na sua ocupação favorita: fazer um barco de folha de jornal.

  Genia era um grande mestre na arte do papel. Passara na cama centenas de dias da sua vida. Bronquite de Outono, anginas de Inverno e constipações de Primavera, tudo aguentara com paciência, dobrando pontas e alisando dobras de folhas de papel, tendo junto de si um livro cinzento azulado com uma girafa na capa. Intitulava-se “Horas divertidas” e tinha sido escrito por um sábio, um mágico, o melhor homem do mundo – um tal M. Gershenson. Este era um grande professor, mas Genia era também um grande aluno. Incrivelmente dotado para aquele passatempo de papel, já tinha feito coisas que nem Gershenson ousara imaginar!

  Genia rodava nas mãos o barquinho incompleto, esperando, com pavor, a chegada dos convidados. Chegaram em grupo às quatro em ponto. As irmãs loirinhas, as convidadas mais novas, entregaram-lhe um grande ramo de margaridas. Os outros vieram sem prenda.

  Ordeiramente, todos se sentaram à mesa. A mãe serviu gasosa caseira com cerejas, e disse:

  — Vamos brindar ao Genia, que faz anos hoje.

  Cada um pegou no seu copo e brindaram. A mãe puxou o banco giratório, sentou-se ao piano e tocou “A marcha turca”. As irmãs olhavam fascinadas para as mãos a deslizar pelas teclas. A mais nova estava com uma cara assustada, como se fosse desatar a chorar a qualquer momento.

  Shenka, com um ar indiferente, comia salada de batata e uma piroga, e a avó rodeava cada convidado de cuidados, como costumava fazer com Genia.

  A mãe tocava agora canções de Schubert. Uma cena incrível: doze crianças mal vestidas mas limpas e bem penteadas, comiam em completo silêncio, enquanto uma mulher magra tirava sons fugidios das teclas do piano.

  O aniversariante estava sentado, com as mãos transpiradas, a olhar fixamente para o prato. A música chegou ao fim, voou pela janela, e só alguns tons graves ficaram a pairar sob o tecto, antes de seguirem os outros.

  — Genia — disse de repente a avó, com voz doce —, não queres tocar também alguma coisa?

  A mãe lançou à avó um olhar alarmado. O coração de Genia quase parava: eles detestavam-no pelo apelido ridículo, pelo andar saltitante, pelo cachecol comprido e pela avó que ia passear com ele. E agora tinha de tocar piano à frente deles!

  A mãe viu que ele empalidecera, adivinhou porquê e respondeu:

  — Noutro dia. O Genia toca noutro dia.

  A corajosa Valka Brobova perguntou, incrédula e quase admirada:

  — Ele sabe tocar?

  A mãe trouxe o bolo. Serviu-se chá. Numa taça redonda havia bombons, rebuçados de fruta e caramelos. Kolia comia à boca cheia sem vergonha nenhuma, e metera ainda alguns ao bolso. As irmãs chupavam rebuçados ácidos e pensavam em quais iriam pegar a seguir. Valka alisava papel de prata em cima do joelho bicudo. Shenka olhava em volta da sala com à-vontade. Os olhos deslizavam de um lado para o outro. Por fim, apontou a máscara e perguntou:

  — Tia Mussia! Quem é aquele? Pushkin?

  A mãe sorriu e respondeu amavelmente:

  — Aquele é Beethoven. Um compositor alemão. Era surdo mas, mesmo assim, compôs música magnífica.

  — Um alemão? — perguntou Shenka alerta.

  A mãe apressou-se a ilibar Beethoven de qualquer suspeita.

  — Já morreu há muito tempo. Viveu há mais de cem anos, muito antes do fascismo.

  A avó começara já a contar que a tia Mussia recebera a máscara de presente da professora, mas a mãe olhou-a com um olhar severo e ela calou-se.

  — Querem que vos toque alguma coisa de Beethoven? — perguntou a mãe.

  — Sim, por favor — concordou Shenka, e a mãe puxou novamente o banco, voltou-o para o piano e tocou a peça preferida de Genia, “A Marmota”, que, por uma razão qualquer, lhe causava tristeza.

  Estavam todos sentados muito quietos, sem o mínimo sinal de impaciência, embora os rebuçados e os doces já tivessem acabado há muito. A terrível tensão sob a qual Genia estivera todo o tempo afrouxara e, pela primeira vez, sentia uma espécie de orgulho. A sua mamã estava a tocar Beethoven e ninguém se ria, todos a escutavam e olhavam para as mãos fortes correndo sobre as teclas. A mãe parou de tocar.

  — Pronto, chega de música. Vamos jogar alguma coisa. A que é que gostavam de jogar?

  — Talvez às cartas — disse Kolia, sem pensar duas vezes.

  — Vamos antes fazer um jogo de prendas — propôs a mãe.

  Ninguém sabia o que era. Shenka estava à janela e revirava nas mãos o barquinho inacabado. A mãe explicou como funcionava um jogo de prendas, mas ninguém tinha nada para dar.

  Lília, uma menina com uma trança complicada, tinha sempre um pente no bolso, mas não queria dá-lo – e se desaparecesse? Shenka poisou o barquinho em cima da mesa e disse:

  — Esta é a minha prenda.

  Genia pegou no barquinho, e muito facilmente o terminou.

  — Genia, faz também prendas para as meninas — pediu a mãe, colocando um jornal e duas folhas de papel mais rijo em cima da mesa. Genia pegou numa folha, pensou um instante, dobrou o papel ao meio…

  As cabeças rapadas dos rapazes e as cabeças com tranças apertadas das meninas curvaram-se sobre a mesa. Um barco, uma barcaça, um barco à vela, um copo, uma barrica de sal, um cesto de pão, uma camisa…

  Mal Genia acabava uma peça, os outros arrancavam-lha imediatamente da mão.

  — Para mim também, faz-me também alguma coisa!

  — Mas tu já tens! Agora é a minha vez!

  — Faz-me um copo, Genia, por favor!

  — Um boneco, Genia, faz-me um bonequinho!

  Esticavam as mãos na sua direcção, ele oferecia aquelas maravilhas de papel e todos sorriam, todos lhe agradeciam. Puxou uma vez do lenço e assoou-se – e ninguém notou, nem mesmo ele.

  Só em sonhos experimentara uma sensação daquelas. Estava feliz. Não sentia medo, rejeição, hostilidade. Não era nem um pouco inferior a eles. Mais ainda: admiravam-lhe um talento trivial, a que nem mesmo ele dava importância alguma. Pela primeira vez, observou-lhes os rostos: não estavam zangados. Não estavam absolutamente nada zangados.

  Shenka virava e revirava uma folha de jornal no parapeito da janela. Tinha desdobrado o barquinho e tentava dobrá-lo outra vez. Quando viu que não era capaz, chegou junto de Genia, pôs-lhe a mão no ombro e perguntou-lhe, tratando-o pela primeira vez pelo nome:

  — Ora olha, Genia, e agora, como é que se faz?

  A mãe lavava a loiça, sorria e as lágrimas caíam-lhe na água com sabão.

  Feliz, o rapazinho distribuía brinquedos de papel.

Ludmila Ulitzkaia
Ein glücklicher Zufall und andere Kindergeschichten
München, Carl Hanser Verlag, 2005
(tradução e adaptação)
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