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Entendemos tão pouco

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Lenda judaica
  Era uma vez dois irmãos que passaram a vida inteira na cidade e nunca haviam visto o campo. Decidiram-se, um dia, a fazer uma viagem para o interior. Enquanto caminhavam, observaram um fazendeiro arando a terra e ficaram intrigados com o que aquele homem estava a fazer.

   E pensaram consigo mesmos: "Que tipo de comportamento é este? O sujeito fica o dia inteiro a andar para a frente e para trás, escavando sulcos profundos na terra. Por que motivo alguém iria destruir uma campina assim tão bonita?"

   À tardinha, voltaram a passar pelo mesmo local e viram o fazendeiro a colocar as sementes nos regos.

   Desta feita, pensaram: "O que estará a fazer? Deve ser louco. Está a deitar fora trigo bom dentro daquelas valas!"

   — O campo não é lugar para mim. As pessoas agem como se fossem malucas. Vou voltar para casa — disse um dos irmãos. E regressou à cidade.

   Mas o outro ficou e poucas semanas depois verificou uma mudança maravilhosa. Os pés de trigo começaram a brotar, recobrindo os campos com um verdor que nunca fora capaz de imaginar. Tratou de escrever ao irmão a fim de que viesse ver aquele crescimento milagroso.

   E o irmão voltou da cidade, ficando maravilhado também com as mudanças. Passados alguns dias, o verde dos rebentos foi dando lugar ao dourado dos trigais. Só então compreenderam a razão do trabalho do fazendeiro.

   O trigo amadureceu completamente e o fazendeiro trouxe a foice e começou a ceifá-lo. O irmão que havia regressado à cidade não acreditou.

   — O que estará o imbecil a fazer agora? Trabalhou o Verão inteiro para cultivar esse lindo trigal e agora está a destruí-lo com as próprias mãos! Não passa mesmo de um doido varrido! Para mim, já chega. Vou voltar para a cidade.

   Mas o outro tinha mais paciência. Ficou no campo e assistiu ao trabalho da colheita, quando o fazendeiro levou o trigo para o celeiro. Observou o esmero com que ele separou o joio, e o cuidado ao armazenar o resto. E ficou estupefacto ao constatar que a semeadura de um saco de trigo permitiu a colheita de todo um trigal. Só então compreendeu que havia uma razão por detrás de cada acto do fazendeiro.

   E percebeu:

   — É assim que são as coisas com os trabalhos divinos. Nós os mortais enxergamos apenas o início do plano de Deus. Não somos capazes de compreender todo o propósito e objectivo final da Sua criação. Portanto precisamos de ter fé na Sua sabedoria.

William J. Bennett
O Livro das Virtudes
Editora Nova Fronteira, 1995
Texto adaptado
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