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Natal no Hipermercado (1ª parte)

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  Muito gostava o Rodrigo de ir à caixa de correio. Quando o Natal se aproximava, estava sempre tão cheia que alguns papéis coloridos ficavam entalados na fresta estreita e comprida. O rapaz puxava-os, mesmo antes de dar a volta à chave, no entusiasmo de descobrir coisas maravilhosas, que apetecia mesmo comprar.

   Subia no elevador com meia dúzia de envelopes brancos, sem graça nenhuma, e uma resma de publicidade.

   A mãe abria as cartas e punha de lado, com um gesto aborrecido, todos os folhetos.

   — Lixo! — irritava-se ela.

   Rodrigo nunca recebia correspondência. O pai, que passava a vida em viagens, dantes ainda lhe mandava postais com monumentos ou paisagens. Agora, que comprara um telemóvel de última geração, com máquina fotográfica incorporada, falava-lhe à noite e mostrava-lhe, de relance, um quarto de hotel, um restaurante, o trecho de uma cidade desconhecida.

   Certa tarde, depois de ler a correspondência, a mãe perguntou-lhe:

   — Então, já está pronta a tua cartinha para o Pai Natal? Espero que a tenhas escrito com uma letra bonita...

   — Ainda não. Posso escolher o que eu quiser?

   Estava habituado a que se metessem sempre nos seus pedidos. Que lhe sugerissem um blusão novo e umas calças de bombazina, que aconselhassem uma bicicleta para fazer mais exercício.

   Mas desta vez a mãe estava ocupada. Tinha de acabar um relatório para apresentar numa reunião. Por isso sentou-se ao computador, despachando-o:

   — Decide à tua vontade. Já estás crescido.

   Foi o que Rodrigo quis ouvir. Pela primeira vez, era livre!

   Sentou-se à secretária no seu quarto azul cheio de carrinhos de colecção.

   Sentiu-se paralisado diante do papel intacto, com a esferográfica na mão.

   Tinha a cabeça cheia de imagens e ninguém o ajudava a tomar uma decisão. Escreveu:

   Um rádio

   Um pião

   Uma lanterna

   Uma mochila nova

   Uma caixa de chocolates

   Havia várias marcas, tantos tamanhos… E se o Pai Natal se enganava?

   De repente, surgiu-lhe uma ideia fantástica. Foi ao saco onde enfiava os prospectos que a professora mandara guardar para recortes e tirou alguns.

   Muitos dos hipermercados tinham pequenos catálogos só com brinquedos. Pegou numa caneta de feltro e fez um círculo à volta de tudo o que queria. Eram páginas, páginas, mais páginas. Jogos, puzzles, automóveis, patins, máscaras, castelos de armar, jardins zoológicos, escorregas, baloiços, um nunca mais acabar de bonecada.

   Não tinha paciência para copiar tudo à mão. Não estava o pai sempre a dizer que é preciso saber utilizar o que os tempos modernos põem à nossa disposição? Amarfanhou a primeira folha e escreveu de novo:

  

   Querido Pai Natal,

  

   Para lhe facilitar o trabalho, este ano mando-lhe folhetos de publicidade dos hipermercados. Assim escusa de andar de loja em loja.

   Aviso-o de que é melhor arranjar uma camioneta porque as suas renas não vão poder com o peso. Acho-as muito giras mas bem pode mandá-las para o jardim zoológico porque são animais muito fracos. Os meninos ficavam a ganhar se, em vez da camioneta, arranjasse mesmo um camião gigante.

   A minha morada vai na parte de fora, onde diz remetente.

   Muitas saudades e desejos de Boas Festas do

   Rodrigo

  

   Quando quis meter toda a papelada no sobrescrito normal, evidentemente não cabia.

   — Mãe, preciso de um envelope maior.

   Ela ficou admirada. Mas foi à gaveta buscar o que o filho pretendia.

   Só que, entretanto, Rodrigo já começara a abrir outros folhetos.

   — Ah, que belas caixas de chocolates! Não as posso perder!

   Havia doces e bolos de todas as espécies, pacotes de batatas fritas, pipocas, queijos amanteigados, pizas estaladiças...

   Retirou outro folheto.

   E se aproveitasse também as mochilas de rodinhas, os ténis de marca, os fatos-de-treino, as bolas de futebol... Sem falar dos álbuns de banda desenhada, dos livros de aventuras, da enciclopédia do mundo animal...

   Sentia a cabeça rodar num turbilhão.

   Puxou por outro catálogo repleto de consolas de jogos, outro com computadores, um terceiro de telemóveis.

   Podia escolher tudo! Tudo! Tudo! Era de enlouquecer!

   Para enviar tanto papel, o envelope grande não chegava.

   Num salto, foi até à mercearia e pediu à menina Maria uma caixa de cartão vazia. Logo por sorte, ela acabara de desempacotar o açúcar.

   Mal chegou ao quarto, toca a atirar para dentro da caixa a sua enorme provisão de papéis de publicidade.

   — Faltará alguma coisa? — disse para os seus botões, inquieto. Voltou a remexer na papelada.

   Claro, faltavam os refrigerantes, as coca-colas, os sumos de laranja, os batidos de chocolate e de morango. Estava farto de beber água! Voltou a procurar nos cantos escondidos.

   — Como é que eu podia esquecer-me dos gelados?! Que grande seca comer sempre fruta à sobremesa por causa das vitaminas!

   Do catálogo da ourivesaria aproveitou só a página dos relógios que eram fantásticos: de ouro, para os dias de festa, de mergulhador, para as férias, com cronómetros, para as corridas. Embora não gostasse de se levantar cedo, aproveitou até um despertador que cantava uma melodia de pássaros.

   Esgotado o fornecimento, fechou a embalagem com fita-cola e colocou por cima a cartinha.

   Arrastou, a custo, a pesada caixa até à sala onde a mãe via televisão.

   — Que vem a ser isto? — espantou-se ela.

   — A minha lista para o Pai Natal. Não disse que eu podia pôr o que me apetecesse? Quero tudo, tudo, tudo! O que eu queria mesmo era um hipermercado só, só, só para mim!

   Se existe o Pai Natal, é preciso aproveitar!

  

   Poucos dias faltavam para as férias. No recreio, os colegas falavam dos seus sonhos.

   — Quero um equipamento de mágico — dizia o Zé.

   — Eu também! — atalhava logo o Rodrigo.

   — Quero uma máquina de fazer pipocas — dizia a Rita.

   — Eu também! — ripostava o rapaz.

   — Quero um jogo de computador — dizia a Mafalda.

   — Ora, ora, eu vou ter isso tudo e muito mais! — vangloriava-se o nosso herói.

CONTINUA...

Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006
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