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Hiroxima, duas cerejeiras e um peixe-lua

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  Yoko faz o embrulho com muito cuidado. De cores claras e os cantos bem dobrados. Por fim, ata a prenda com um cordão dourado e, no meio, cola o Y do seu nome. Amanhã é o dia 6 de Agosto, por isso hoje tem de ir visitar a sua velha tia, irmã da avó. Uma mulher que nunca teve marido, nem filhos. Nem sorte.

   Embrulhada a prenda, Yoko já só pensa numa coisa: como fazer para não tocar na tia? Detesta tocar-lhe por causa da "ameixa seca", aquela mancha castanha e enrugada na mão direita da velha senhora. Os pais é que insistem para que ela se aproxime... E este ano, pela primeira vez, Yoko vai lá sozinha. Os pais têm ambos reuniões de trabalho ainda mais importantes do que esta visita anual. Yoko protege o embrulho com um pano, mete-o por sua vez num saco de papel, e põe-no na mochila. Gosta de respeitar os seus hábitos pessoais. Antes de sair, mete ainda no saco a carta da sua correspondente de São Francisco e, depois, lá vai ela ao encontro da sua velha tia Tsukiyo. Ao descer a longa rua que leva à paragem do autocarro, Yoko diz para os seus botões que nenhum outro nome teria calhado melhor à tia. Tsukiyo significa "noite iluminada pela lua".

   — Esta mulher é a noite e está totalmente do outro lado da lua! Achas isto normal, caro chapim?

   O chapim levanta voo. O autocarro chega. Yoko sobe num passo muito decidido. Este ano vai dizer a verdade à tia Tsukiyo. E vai ainda descobrir outra coisa: quer finalmente saber se gosta desta velha senhora ou se não gosta mesmo nada dela.

   Yoko inclinou-se várias vezes diante da velha tia, que esperava, pacientemente, de pé, à sombra do grande ginkgo, o imperador das árvores do parque. Depois, Yoko aproximou a cabeça que Tsukiyo acariciou com a mão direita e também com a esquerda. E sem dizer palavra, Yoko voltou a inclinar-se várias vezes, de mãos juntas. Em volta, tudo está verde e florido, excepto o céu, que é azul e sem nuvens. A velha tia traz sempre à volta do pescoço um delicado fio de ouro com a sua pérola natural, branca como uma luazinha. Yoko sorri. De braço dado, a velha senhora e a menina começam o seu passeio anual. Saúdam as árvores que, entretanto, cresceram, e as aves nascidas depois do último encontro.

   — Agora, Yoko, podíamos ir ver se…?

   — Se as flores de lótus abriram. Sim, minha tia.

   — Guia-me, minha sobrinha.

   Yoko conhece de cor o caminho do pequeno lago dos lótus. Tem vontade de interrogar uma vez mais Tsukiyo sobre a cidade e a sua vida. E de lhe dizer finalmente a verdade, mas as rosas cheiram tão bem ao longo do passeio….

   — Talvez tenhamos a sorte de ver hoje um…

   — Um rouxinol, minha tia. Talvez. Mas…diz-me antes, tia Tsukiyo, porque é que a minha correspondente teve tanto medo quando lhe disse o nome da minha cidade: Hi-ro-xi-ma.

   Yoko tira a carta do saco e insiste:

   — Hiroxima, 6 de Agosto de 1945. Lembras-te, a sério? Anda lá, conta-me, tia.

   — Oh... era a guerra, minha querida Yoko! — respondeu ela a sorrir. — A guerra de outrora. Os soldados do Japão eram guerreiros e havia tanta falta de arroz! Felizmente que o meu pai era um valente pescador! As sardinhas saltavam-lhe para dentro da barca! Às vezes até ostras trazia, as melhores ostras do Japão, as nossas lindas ostras de Hiroxima. Mas preferia vendê-las. Um pedaço de tecido custava muitas ostras, sabes?

   — Mas então…e a bomba? Diz-me, tia, que finalmente recordas tudo o que aconteceu naquele ano…

   — Sim, minha Yoko, lembro-me dos aviões que bombardeavam as cidades do Japão, as que estão à volta de Hiroxima. As casas de madeira e de papel ardiam tão facilmente…

   — E depois, tia…

   — Eu tinha dez anos e brincava a procurar grãos de arroz por entre a gravilha do jardim. E quando encontrava um, dizia-lhe: "Chama depressa os teus amigos, Grãozinho de arroz", tal como no livro de contos, o primeiro que soube ler sozinha.

   — Sim, minha sorridente tia... Mas no dia 6 de Agosto de 1945?

   Tsukiyo cala-se. Parece olhar para um ponto muito distante, muito para além do cérebro cansado. Depois, lentamente, retoma:

   — Era a hora do pequeno-almoço, no dia 6 de Agosto. Um pouco de sardinha e de água quente. O atum era para os ricos…

   — E depois?

   — Olhei para a luz do sol. As nuvens diziam-me todas as manhãs se o dia na escola me ia correr bem. "A luz do sol" foi assim que os teus pais te baptizaram, minha Yoko.

   — Obrigada, tia, por hoje finalmente te lembrares de tudo. E às 8 h e 15?

   — As nuvens disseram-me: "Boa nota a Ciências!". As sirenes acordaram os que ainda dormiam. Chegaram os aviões. E uma bomba estranha caiu, caiu, caiu, caiu…mas felizmente o nosso galo cantou do alto do seu monte da lenha, era o ano do galo! Acordou as flores das nossas duas cerejeiras que imediatamente começaram a multiplicar-se, a crescer, a crescer, a crescer… Um tapete de flores de cerejeira cobriu a nossa querida cidade de Hiroxima… E a terrível bomba pousou suavemente em cima dos ramos, mal tocando em algumas pétalas que nem sequer chegou a amachucar.

   — Estás a mentir, Tsukiyo! Estás sempre a mentir! Porque foi na nossa Terra que ela caiu, essa maldita bomba…

   — Não te deves preocupar, minha Yoko, porque todos os grous do nosso querido Japão regressaram… Eles estavam de vigia lá no meio dos aviões. Os grous puseram-se em cima das cerejeiras e o mais forte apanhou a bomba com o bico para a levar para longe…

   — E os teus dois irmãos e o teu pai que morreram ao mesmo tempo às 8 h e 15, com o calor atómico da bomba, tia? E a vendedeira de legumes e o teu professor e as suas três filhas que morreram muito tempo depois em consequência das queimaduras? E a ameixa seca na tua mão direita, velha tia Tsukiyo?

   Sem alterar o sorriso, a tia apoia-se no corrimão da pequena ponte de madeira. Yoko agarra-lhe os dois ombros e fala-lhe mais alto:

   — É como se os sessenta vulcões das nossas ilhas tivessem explodido todos ao mesmo tempo, essa é que é a realidade! Tia Tsukiyo, suplico-te que me fales a sério!

   — Os grous, minha Yoko, voaram por cima das cerejeiras, dos ciprestes, dos abrunheiros, e foi sobre uma flor de trepadeira que colocaram a bomba. Estava tão longe do avião grande e negro que parecia minúscula, a bomba, como um menino perdido na floresta! Levada pelo orvalho da manhã, a flor da trepadeira deslizou até à cascata, que a levou ainda para muito mais longe…

   — Mas, e o meu professor, que todos os anos nos conta, com as abomináveis fotos, como foi a explosão nuclear? E o ramo de lótus e de camélias brancas que todos os anos, com os meus pais, levo ao memorial da cidade e… a minha correspondente que vive num sítio aonde os grous nunca foram e que apesar disso sabe, ela…

   Yoko larga bruscamente o braço da velha senhora:

   — O que eu sei é que tu mentes aos mais novos!

   Tsukiyo sorriu como se nenhuma palavra tivesse poder para perturbar o conto que inventou para se proteger da fealdade do mundo. Depois, incansavelmente, retoma:

   — Ao pé da cascata que caía para o mar, havia, sabes o quê, minha Yoko?

   — Sim, tia, já mo disseste mil vezes! Havia um estúpido peixe-lua! Detesto os peixes-lua. São mortais!

   — Os peixes-lua das nossas águas são peixes perigosos para os humanos — retoma Tsukiyo. — Mas este não teve medo de engolir a bomba que a flor levava. Uma velha tartaruga e um valente pescador encorajaram-no. Então, o peixe mergulhou no mais fundo do mar e depositou a bomba no côncavo de uma ostra, a mais distante ostra de Hiroxima. Ali, transformou-se numa bolinha redonda e branca como a lua. Uma pérola.

   A tia conta, e uma lágrima brota ao canto dos olhos de Yoko. Esta limpa-a. Tsukiyo e Yoko chegam então ao pé do pequeno lago. Os lótus estão floridos, abertos e luminosos. Agosto é a sua estação. O céu está tão azul como teria estado no dia 6 de Agosto de 1945. Yoko sente-se infeliz. Mas sorri às flores que olham para ela. Depois contempla a sua velha tia que olha ao longe. Toma-a pelo braço. O sol começa suavemente a baixar. Mulheres e homens de bata branca percorrem as áleas do parque, dizendo as horas e aconselhando as pessoas que por ali passeiam a não se atrasarem demasiado.

   Sobre a esteira do pequeno salão cor-de-rosa, a velha tia desenrola um guardanapo com dois bolos de feijão vermelho. Pô-los de lado para Yoko, aquando das suas refeições da semana passada. Yoko abre a mochila e tira de lá o saco de papel que guarda a prenda envolta num pano. Ambas sorriem e Yoko ajuda Tsukiyo a abrir o embrulho. A tia deve pensar que se trata uma vez mais de uma chávena de chá.

   — Que linda! Que memória a tua, minha Yoko! Não esqueceste que faço colecção. Que porcelana tão fina! Oh! Que lindo o desenho do galo na árvore!

   — Na cidade, vendem-nas em toda a parte, minha tia. Estamos outra vez no ano do galo, sabes, do galo de madeira.

   — Hhmmm, uma árvore perfumada!

   Yoko tinha metido na chávena um saco de chá verde das montanhas.

  

   Yoko foi embora depois de saudar longamente a sua velha tia. No seu quarto, Tsukiyo tira do armário uma caixa de madeira que pousa no chão. Com a mão direita pega na chávena do emblema do galo e, do alto, larga a taça e deixa-a cair, cair, cair... Quebrada a taça com toda a violência, Tsukiyo apanha os estilhaços e guarda-os na caixa juntamente com os de dezenas de outras chávenas de chá, de outros sacos rasgados. E fica a olhar. Nenhuma cerejeira, nenhum grou, nenhum peixe-lua, jamais impediram as suas chávenas de explodir. Quando batem à porta, a velha senhora tem os olhos fixos no galo feito em pedaços.

   Uma mulher vestida de branco mete a cabeça pela frincha e diz com gentileza:

   — Está na hora da sopa, senhora Tsukiyo, uma boa sopa de salmão, esta tarde.

   — Oh, foi certamente o meu pai que o pescou, vou já…

   — Mas o seu pai, senhora Tsukiyo, o seu pai, já há muito tempo que..

   Todos os visitantes deixaram o parque. Yoko foi a última a sair, depois de ter colhido, às escondidas, um raminho de lótus e de camélias brancas. O hospital psiquiátrico fechou as portas sobre os seus doentes, os seus fantasmas e os seus dóceis peixes-lua. Ao ver o empregado a fechar a cadeado o portão de madeira, Yoko pergunta-se se tem o direito de dizer aos pais que a velha tia está louca. Sempre disseram "cansada", "cabeça no ar" e "sonhadora". Ela, ela acha que é preciso estar mesmo doida para dizer o que Tsukiyo diz.

   No autocarro, Yoko também se questiona sobre se gosta ou não da velha tia da ameixa seca na mão. Gostava de dizer, um dia, perante os seus colegas de turma: "A minha tia é uma sobrevivente. Pode vir dar testemunho. O que ela conta é algo de muito duro, vão ver!".

   Quando o autocarro arranca depois de ter deixado Yoko, um chapim pousa no passeio. Yoko, a sorrir, pergunta-lhe:

   — Achas que o chá verde das montanhas pode curar uma velha tia? Daqui a um ano veremos!

Alain Serres
Hiroshima, deux cerisiers et un poisson-lune
Paris, Rue du Monde, 2005
(Tradução e adaptação)
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