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Havemos de nos encontrar (2ª parte)

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  A minha mãe acordou-nos muito cedo. Depois de eu contar o que tinha feito aos peixes, fomos ver se ainda estavam vivos. A Marina bateu palmas e chamou-os pelo nome, mas o Luar e a Luz permaneceram escondidos.

   — Se calhar estão a dormir — disse ela. — Estou certa de que vão adorar o nosso charco.

   As nossas bagagens estavam prontas. Duas para a nossa mãe e para mim, e uma pequenina para a Marina. O dia começava a dissipar as sombras da noite, que ainda enchiam o caminho naquela manhã. Olhei para trás pela derradeira vez, enquanto nos afastávamos. Lá ficava o nosso carvalho, o pequeno quintal, e o jardim da minha mãe onde as flores, ainda escondidas na terra, esperavam a Primavera. Será que iríamos voltar algum dia? O nosso pai saberia onde nos encontrar?

   Caminhámos durante muito tempo… Íamos muito devagar e havia pessoas que nos ultrapassavam. Outras caminhavam ao nosso lado e o que narravam fazia-nos crer que tínhamos feito bem em partir, antes de sofrer um tal horror. Andámos, andámos… A dado momento, um homem com um carrinho de mão deixou que a Marina viajasse nele durante um dia. Até nos levou as bagagens. Esse foi o melhor dia de marcha que tivemos.

   À noite, dormíamos nos campos ou nas quintas. Numa tarde em que chovia bastante, tivemos a sorte de encontrar uma casa abandonada. Nessa noite, dormimos bem. Noutro dia, alguns homens do Exército de Libertação pararam e partilharam o seu frango connosco. Nesse dia, pudemos comer fricassé!

   — Vocês conhecem o nosso pai? — perguntou-lhes a Marina.

   Os homens disseram que não.

   Continuávamos a procurar o nosso pai, julgando vê-lo, por vezes. Mas era sempre alguém que se parecia com ele. Às vezes, a Marina e eu pedíamos à nossa mãe para fazer uma paragem, porque nos sentíamos incapazes de andar mais. Felizmente que a coragem da nossa mãe nos ajudava a seguir em frente. Certa manhã, ouvimos alguém gritar:

   — Já se vê a fronteira! Estamos perto!

   Toda a coluna vibrou com as aclamações das pessoas, que gritaram de alegria até ficarem roucas.

   Depois de passarmos a fronteira, a viagem decorreu bem melhor. Havia tendas para ficar, comida para comer, e onde aquecê-la. Podia-se lavar roupa e tomar banho. Havia muitas crianças no campo de refugiados. Tornei-me amigo de dois rapazes, Behar e Admir, e brincávamos juntos. Deixaram-nos pintar as iniciais do Exército de Libertação num muro, o que nos fez sentir como se estivéssemos a lutar ao lado deles, para libertar o nosso país do exército ocupante.

   Já estávamos neste campo há muito tempo quando o nosso pai nos encontrou. Um dia levantei os olhos e vi-o. Sujo, magro… mas bonito! A Marina e eu gritámos de alegria. Ele pegou em nós e cobriu-nos de beijos. Vi que as lágrimas corriam pela cara da minha mãe. O meu pai abraçou-a e acariciou-lhe os cabelos, enquanto lhe murmurava palavras ao ouvido. Ela afagou o rosto dele com a ponta dos dedos, como que a certificar-se de que não estava a sonhar.

   — É mesmo verdade que estás aqui?

   — Estou! — respondeu o meu pai, docemente. — Só por milagre é que vos encontrei. Procurei-vos por todo o lado!

   A Marina agarrou-se-lhe às pernas.

   — Papá, vais ficar connosco?

   — Sim, minha querida.

   O meu pai sorriu. Eu não sabia como, mas bastava-me saber que ele iria ficar.

   — Podemos voltar para casa, pai? — perguntei-lhe.

   — Ainda não, Vítor. Daqui a algum tempo.

   Foi preciso esperar ainda longos meses até nos dizerem que podíamos regressar sem perigo. Nessa noite, dançámos todos à volta das tendas. Foi uma festa alegre e linda.

   No dia seguinte, pela manhã, começou a longa caminhada que nos levaria de regresso a casa. Mas foi uma caminhada triste, já que, pelo caminho, não vimos casas, quintas ou animais. Apenas ruínas e grandes buracos onde as bombas tinham caído.

   Caminhámos durante muito tempo…

   Eu sabia que a nossa casa já não existiria, mas recusava-me a aceitá-lo. A Marina, sempre às costas do nosso pai, não parava de tagarelar alegremente. Era a única que pensava que voltaríamos à mesma vida de antes.

   Quando vi o carvalho ainda de pé, o meu coração rejubilou. Cheio de esperança, apertei a mão da minha mãe. Poderia ser que tudo estivesse bem. Mas logo vi que a nossa casa já não existia. Restavam apenas pedaços de paredes ainda em pé. No jardim da minha mãe, algumas flores começavam a querer despontar. O resto era um deserto lunar.

   A Marina foi a primeira a pensar nos peixes. Tirou um bocado de pão duro do saco da nossa mãe e correu para o charco. Fomos todos atrás dela para a consolar… Mas o nosso charco brilhava e nele nadavam milhares de peixes! A minha mãe levou a mão ao peito.

   — O Luar, a Luz, os seus filhos, e os filhos dos seus filhos — exclamou ela, emocionada.

   — Encontraram de comer — disse o meu pai.

   A Marina agarrou a mão dele:

   — São muito inteligentes!

   — Sobreviveram, apesar de tudo e contra tudo — murmurou a minha mãe.

   "Sobreviveram. Tal como nós", pensei eu.

   — Luz! Luar! — gritou a Marina, ajoelhada, atirando migalhas de pão para a água.

   Os peixes, uns atrás dos outros, vieram ter com ela à beira do charco.

   — Vejam! O Luar é este… e a Luz está ali! — disse, segura de si.

   O que nos fez rir, porque os peixes eram todos exactamente iguais.

   — Sentiram falta de mim? — perguntou-lhes a Marina. — Eu tive muitas saudades vossas.

   Debrucei-me sobre a água.

   — Estamos de volta — anunciei à Luz e ao Luar. — Regressámos a casa!

  

   Nota do autor:

   Existe, na Bósnia-Herzegovina, uma aldeia chamada Jezero. Nesta aldeia, em 1990, antes do começo da guerra na Bósnia, um homem chamado Smajo Malkoc ofereceu aos filhos um aquário com dois peixes dourados.

   Quando a guerra rebentou, a família de Smajo Malkoc foi obrigada a fugir das forças sérvio-bósnias. Na esperança de salvar os dois peixes, a mulher deitou-os ao lago que ficava à beira de casa deles.

   Quando regressaram, em 1995, no fim da guerra, tanto a casa como a aldeia de Jezero não eram mais do que ruínas. O lago, pelo contrário, ganhara vida. Tinha-se enchido de inumeráveis peixes cujos reflexos brilhavam na água. Entregues à sua sorte, os animaizinhos tinham conseguido encontrar alimento nas profundidades do lago, e tinham-se multiplicado.

   A fama destes peixes excepcionais espalhou-se e as pessoas das aldeias em redor acorreram para os ver e comprar. Em breve se iria provar que estes peixes não eram apenas belos, mas que tinham um valor acrescido. Trouxeram prosperidade e celebridade à família Malkoc, bem como a todos os habitantes de Jezero, e a aldeia pôde ser reconstruída.

   É, pois, esta história mágica e verídica que está na origem deste livro. Contudo a minha versão não se dirige apenas a estas pessoas ou aos habitantes deste país. Dirige-se a todos aqueles que no mundo, obrigados um dia a deixar tudo, souberam encontrar um raio de esperança nas situações mais difíceis.


Eve Bunting
On se retrouvera
Paris, Syros Jeunesse, 2001
(Tradução e adaptação)
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