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A mulher das mãos de luz

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  Residência selvagem construída à beira de uma corrente impetuosa e profunda na montanha verde, a cidadela de Psébadé, guerreiro de alma forte, e da esposa, Adaya, bela como um sol, era um refúgio tão seguro que ali ele não temia ninguém.

   Quando partia em campanha, Adaya sentava-se à janela da torre mais alta, estendia as mãos para fora e iluminava-lhe o caminho: aquela mulher incomparável tinha o poder de fazer brotar luz dos seus dedos brancos. Guiava, assim, os passos do marido enquanto ele descia na névoa da madrugada para as férteis planícies. E, quando à noite, perseguido pelo inimigo, voltava carregado com o espólio das invasões, lançava uma ponte de teia através da corrente, iluminava-a potentemente e, mal Psébadé a atravessava, apressava-se a levantá-la e a esconder aquelas mãos radiosas, fazendo com que os perseguidores se perdessem nas trevas, molhados pela espuma das cascatas, que não ousavam atravessar, e exaustos, regressassem às suas casas.

   Ora, aconteceu que estas invejáveis façanhas incharam Psébadé de orgulho indiscreto a ponto de, num dia de festa, entre viajantes de passagem, começar a gabar-se e a mostrar-se fanfarrão.

   — Quem seria capaz de vencer-me? — perguntou. — Ninguém. Até mesmo do país dos gigantes ciclópicos voltaria vivo e rico se me desse na telha ir roubar para essas bandas. Ainda ontem atravessei a corrente com dezoito cavalos malhados e vinte e uma vacas roubadas na planície. Nenhum dos que me perseguiam (e eram mais de cem) conseguiu apanhar-me!

   Adaya, ouvindo-o falar assim, baixou a cabeça e, subitamente amuada, murmurou:

   — E eu não sou nada nos teus feitos de armas?

   Psébadé, olhando-a por um momento em silêncio, com as sobrancelhas juntas e a boca arqueada, respondeu:

   — Vou sozinho para as invasões. Vais no meu lugar? É a tua vida ou a minha que as flechas ameaçam? Cala-te então, mulher, não sabes o que dizes.

   — Homem, a tua vaidade envergonha-me — murmurou a bela Adaya, erguendo, com firmeza, a cabeça.

   — Há heróis mais corajosos do que tu neste mundo.

   Psébadé, batendo com as mãos na mesa, levantou-se, com o coração trespassado de raiva.

   — Saberás em breve qual é o meu verdadeiro valor — disse.

   E nesse mesmo instante selou o cavalo e partiu.

   Desta vez, perdeu-se inexplicavelmente. Vagueou cada dia mais amargamente, foi empurrado para todos os lugares onde o acaso o conduzia, não conseguiu pilhar senão magra subsistência. O cavalo arrastou-se pelos caminhos pedregosos, tomado de estranho cansaço, e a bela peliça de feltro, desbotada pelas chuvas e pelos sóis, rasgou-se pelo meio das costas. Então, no limite das forças, decidiu regressar a casa. Para não voltar de mãos vazias, no caminho de regresso atacou uma aldeia de cercas abundantes em gado, mas não conseguiu roubar nada e foi perseguido por um grupo de guerreiros montados em velozes cavalos. Uma noite, Adaya, do alto da torre onde se fechara, ouviu-o gritar por socorro do outro lado da corrente. Olhou sobre os joelhos as suas mãos de luz, mas não se mexeu, pensando que ele devia vencer sozinho as trevas, já que assim o tinha decidido. Esperou, escutando o ruído pela porta, os passos decididos do marido sobre as lajes. O silêncio obstinou-se.

   Tomada de inquietação, foi à janela, abriu o postigo, estendeu para o lado de fora os dedos brilhantes. A borda da corrente estava deserta. Ao longe, na direcção das terras baixas, viu uma mancha negra sobre uma grande laje. Saiu apressada e, saltando de rochedo para arbusto ao longo da margem, despenteada, chegou ao lugar onde estava o corpo de Psébadé, que a corrente tumultuosa arrastara.

   Estava morto. Deu um grito de susto e desespero, caiu sobre ele e abraçou-o até de madrugada. Quando o dia nasceu, enterrou-o, ajoelhou-se sobre o túmulo e rezou. Ficou assim sete dias e sete noites com o rosto entre as mãos. Na manhã do oitavo dia passou por ali um cavaleiro. Era belo e grande e o cabelo brilhava ao sol-nascente.

   Vendo aquela linda mulher perdida de desgosto, desceu do cavalo e perguntou-lhe por que se lamentava assim.

   — Que importa? — respondeu ela. — Não podes fazer nada por mim. Segue o teu caminho.

   O homem respondeu-lhe:

   — Socorrer uma mulher que sofre traz sorte aos aventureiros. Pensa bem. Voltarei daqui a uma hora. Dir-me-ás nessa altura que dor te magoa e ajudar-te-ei.

   Voltou a montar e foi-se embora ao longo da corrente.

   Adaya seguiu-o com os olhos. Viu-o logo dirigir o cavalo para as águas turbulentas. Pensou: "Vai afogar-se." Quis gritar-lhe que tomasse cuidado, mas não teve tempo, cavalo e cavaleiro, molhados de espuma, recuperavam já o pé na outra margem. "Que valentia!", pensou ela. "O herói que choro foi menos corajoso, para minha infelicidade. Pela rainha dos mares e dos rios, tenho de pôr à prova este homem!" Reergueu a cabeça, abriu os braços e rezou assim para o céu:

   — Deusa terrível e generosa, faz com que o dia escureça, a tempestade rebente, os relâmpagos rasguem as nuvens, as cascatas cubram as terras!

   A severa senhora dos rios assim o executou. Mal Adaya tinha acabado de falar, nuvens pesadas elevaram-se, apagaram a luz do dia, caíram em dilúvios que cegavam. Na confusão da tormenta, a mulher dos dedos de luz, curvada sobre o túmulo do marido, ouviu de repente um galope crepitante. Voltou a levantar-se e, através do aguaceiro, viu o cavaleiro vir de novo na sua direcção.

   — Por que voltaste? — gritou-lhe ela.

   Ele respondeu-lhe, a rir:

   — Poderia abandonar-te no meio de uma tempestade como esta?

   — Arriscaste mil mortes para atravessares duas vezes esta corrente. Vê como está furiosa.

   — Não fui eu que a atravessei, foi o meu cavalo — disse o homem, rindo ainda mais.

   Aquela resposta agradou a Adaya, que baixou a cabeça para esconder o clarão dos seus olhos. O cavaleiro sentou-se ao lado e cobriu-lhe os ombros com o seu grande casaco. Então, subitamente, a chuva parou, as nuvens dispersaram-se, o Sol voltou a brilhar, alto no céu, a terra à volta ficou verde, apenas o chão do túmulo ficou escuro e árido.

   — Olha — disse Adaya. — Tudo à nossa volta parece saborear a felicidade de viver, tudo floresceu num instante, excepto o quadrado de terra onde está um morto. Porquê?

   — Porque esse que está aí deitado só se amava a si mesmo — respondeu o homem. — Não amava a vida.

   Adaya baixou a cabeça e murmurou:

   — O que está ali deitado amava-me e eu amava-o, era o meu marido.

   — Tu amava-lo, mas ele não te amava — disse o homem. — Se te tivesse amado, o túmulo estaria coberto de flores.

   Olhou a mulher jovem e sorriu-lhe. Também ela o olhou longamente.

   — Como é bom o teu calor — disse-lhe ela.

   Depois, saindo bruscamente do abrigo do casaco, começou a espalhar com grandes gestos raivosos o monte de terra que tinha erguido. O companheiro perguntou-lhe por que estava tão enfurecida. Ela murmurou:

   — Este homem, que só se amava a si mesmo, não merece que nos lembremos da sua vida.

   — Fizeste um esforço inútil erguendo-lhe o túmulo — disse-lhe o cavaleiro. — Fazes um esforço inútil para o destruir. Deixa-o como está a fim de que, vendo-o estéril, corem de vergonha aqueles que só se amam a si próprios.

   E o homem das mãos potentes e a mulher das mãos de luz levantaram-se e partiram juntos ao longo da corrente, sob o sol calmo.

Henri Gougaud
A Árvore dos Tesouros
Lisboa, Gradiva,1998
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