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A Sombra (2ª parte)

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  — Veja se adivinha quem morava no quarto do vizinho! — começou a primeira sombra. — Era um ente encantador, era a Poesia. Permaneci lá três semanas, e este tempo valeu para mim mais de três mil anos. Li todos os poemas possíveis, conheço-os perfeitamente. Através deles vi tudo e tudo sei.

   — A Poesia! — exclamou o sábio. — Sim, é verdade; muitas vezes ela não é mais do que um eremita no meio das grandes cidades. Vi-a por um instante… Brilhava na varanda como uma aurora boreal. Vamos! Continua. Uma vez passada a porta entreaberta…

   — Encontrei-me na antecâmara; estava um pouco escuro, mas distingui na minha frente uma fila imensa de quartos, cujas portas se encontravam abertas de par em par. Fazia-se luz a pouco e pouco e, sem as precauções que tomei, teria sido fulminado pelos raios, antes de chegar junto da donzela.

   — Mas, afinal, que vias tu? — perguntou o sábio.

   — Eu via tudo, como lhe disse há pouco. Mas peço-lhe antes de continuar: não é por orgulho, mas, como homem livre e dotado de grandes conhecimentos, sem falar da minha posição e da minha fortuna, não me trate mais por tu.

   — Peço-lhe perdão; é um hábito antigo. Tem toda a razão, isso não acontecerá mais. Enfim, que via o senhor?

   — Tudo! Eu vi tudo e sei tudo.

   — Que aspecto ofereciam as salas interiores? Pareciam-se com uma floresta cheia de frescura, com uma igreja sagrada ou com um céu estrelado?

   — Pareciam-se com tudo isso. É verdade que não as atravessei; mas da antecâmara vi tudo.

   — Mas, enfim, os deuses da antiguidade passeavam-se por essas salas? Os antigos heróis nelas combatiam? Estavam povoadas pelas brincadeiras e pelos sonhos de encantadoras crianças?

   — Repito-lhe mais uma vez que vi tudo. Se ali tivesse entrado, o senhor não se teria transformado num homem, mas eu transformei-me! Aprendi a conhecer a minha verdadeira natureza, os meus talentos e o meu parentesco com a poesia. Quando ainda estava consigo, nunca reflectia nisso; mas o senhor deve recordar-se como eu aumentava sempre, ao nascer e ao pôr-do-sol. Ao luar, eu parecia quase mais distinto que o senhor; mas ainda não compreendia a minha verdadeira natureza. Foi na antecâmara para onde me enviou que aprendi a conhecê-la. Estava amadurecido no momento em que me largou no mundo; mas o senhor partiu, de repente, deixando-me quase nu. Senti logo vergonha: precisava de vestuário, de botas, de todo esse verniz que faz um homem. Escondi-me, digo-lhe sem receio – persuadido de que o senhor não o publicitará – debaixo das saias de uma confeiteira que ignorava o meu valor. Só à noite é que saía para percorrer as ruas, ao luar. Subia e descia ao longo das paredes, olhando pelas grandes janelas para dentro dos salões, e, pelas clarabóias, para as mansardas. Olhei por onde ninguém podia olhar e vi o que ninguém podia nem devia ver. Para lhe dizer a verdade, este mundo é muito vil; e, se não fosse o preconceito de que um homem significa alguma coisa, eu não me preocuparia nada em sê-lo. Vi coisas inimagináveis entre as mulheres, entre os homens, entre os pais e as crianças. Vi o que ninguém devia saber, mas o que todos ansiavam por saber – o mal do próximo. Se tivesse escrito um jornal, devorá-lo-iam; mas preferi escrever às próprias pessoas. Desencadeava-se um terror inaudito por todas as cidades por onde eu passava. Temiam-me e amavam-me. Os professores fizeram-me professor, os alfaiates deram-me fatos; tenho-os em grande quantidade; o director da Casa da Moeda cunhou-me belas moedas; as mulheres acharam-me gentil. Foi assim que me tornei no que sou. E agora, apresento-lhe os meus respeitos. Eis o meu cartão; moro do lado do sol e, em tempo de chuva, encontrar-me-á sempre em casa.

   Ditas estas palavras, a sombra saiu.

   — Que caso mais notável! — murmurou o sábio.

   Exactamente um ano depois, a Sombra voltou.

   — Como está? — perguntou.

   —Ai! Escrevi acerca da verdade, da beleza e da bondade, mas ninguém prestou atenção a nada! Estou desesperado!

   — Faz mal; olhe para mim; eu engordo, e é o que é preciso. O senhor não conhece o mundo. Aconselho-o a fazer uma viagem; e, melhor ainda, como tenciono fazer uma este Verão, dar-me-á muito prazer se me quiser acompanhar, na qualidade de sombra. Eu pago a viagem.

   — O senhor exagera!

   — Depende. Pode estar certo de que a viagem lhe fará bem. Seja a minha sombra, não tem nenhuma despesa a fazer.

   — Vai longe de mais! — disse o sábio.

   — O mundo é assim e será sempre assim — redarguiu a Sombra, indo-se embora.

   O sábio achava-se cada vez pior, cheio de aborrecimentos e de desgostos. O que ele dizia da verdade, da beleza e da bondade, produzia na maior parte dos homens o mesmo efeito que as rosas num animal.

   — Parece uma sombra — disseram-lhe uma vez, e isso fê-lo estremecer.

   — Precisa de ir a banhos — aconselhou-lhe a Sombra, que o tinha voltado a ver. — É o único remédio. Irei consigo, pois a minha barba não cresce, o que é uma doença. É preciso ter barba. Eu pago a viagem; o senhor fará a descrição do que virmos e isso entreter-me-á pelo caminho. Seja razoável; aceite a minha oferta; viajaremos como antigos camaradas.

   Puseram-se a caminho. A Sombra tornara-se o amo, e o amo convertera-se na sombra. Por toda a parte se seguiam um ao outro, sempre em contacto, pela frente ou por trás, conforme a posição do sol. A Sombra sabia sempre ocupar o conveniente lugar do amo, e o sábio não se melindrava com isso. Estava sempre bem disposto e, um dia, disse à Sombra:

   — Visto que somos companheiros de viagem e que temos crescido juntos, tratemo-nos por tu: é mais íntimo.

   — O senhor está a ser franco comigo — disse a Sombra, ou, antes, o verdadeiro amo — Eu também lhe vou falar com franqueza. Na qualidade de sábio, o senhor deve saber quão estranha é a Natureza. Há pessoas que não podem tocar um bocado de papel pardo sem se sentirem mal; outras tremem quando ouvem esfregar um prego numa vidraça; quanto a mim, sinto a mesma sensação quando ouço tratarem-me por tu: afigura-se-me que isso me deita por terra, como no tempo em que eu era a sua sombra. Bem vê que isto em mim não é orgulho, mas sensibilidade. Não posso deixá-lo tratar-me por tu, mas tratá-lo-ei eu a si: será metade do que deseja.

   A partir desse momento, a Sombra começou a tratar por tu o seu antigo amo.

   "Essa é boa!", pensou este. "Eu trato-o por senhor e ele trata-me por tu." Não obstante, resignou-se.

   Chegados aos banhos, encontraram uma grande quantidade de estrangeiros; entre outros, uma formosa princesa atingida por uma doença inquietante: via claro demais.

   Logo distinguiu a Sombra entre todas as outras pessoas: "Ele veio aqui para fazer crescer a barba, segundo dizem; mas a verdadeira causa da sua viagem é que não tem sombra nenhuma."

   Cheia de curiosidade, entabulou, durante um passeio, uma conversa com aquele estrangeiro. Na sua qualidade de princesa, não necessitava de muitos rodeios. Disse-lhe logo:

   — A sua doença é não ter sombra.

   — Vossa Alteza Real acha-se felizmente muito melhor — respondeu a Sombra. — Sofria de ver demasiado claro, mas agora está curada, pois não vê que tenho uma sombra, e até uma sombra extraordinária. Vê a pessoa que me segue continuamente? Não é uma sombra vulgar. Do mesmo modo que, às vezes, se dá por libré aos criados um tecido mais fino do que aquele que se usa em si próprio, assim eu adornei a minha sombra como um homem. Até lhe dei uma sombra. Por muito caro que isso me custe, gosto de ter coisas que os outros não têm.

   "O quê! – pensou a princesa. – Estarei realmente curada? É verdade que a água, na época em que vivemos, possui uma virtude singular, e estes banhos têm grande reputação. No entanto, não irei já embora; divirto-me aqui muito e este rapaz agrada-me. Oxalá que a barba não lhe cresça, porque senão vai-se embora!"

   À noite, a princesa dançou com a Sombra no grande salão de baile. Ela era muito ágil, mas o seu cavalheiro ainda era mais; nunca encontrara um como ele. Disse-lhe o nome do seu país, que ele conhecia muito bem, pois tinha olhado para ele através das janelas do comboio. Ele contou mesmo à princesa certas coisas, que a surpreenderam muito. Era o homem mais instruído do mundo! Ela testemunhou-lhe, pouco a pouco, toda a sua estima, e, quando uma vez mais dançaram, traiu o seu amor por olhares que pareciam atravessá-lo. Não obstante, como era rapariga sensata, disse para consigo: "Ele é instruído, dança perfeitamente, mas será um homem verdadeiramente culto? Isto é o mais importante; vou observá-lo melhor".

   E começou a interrogá-lo sobre coisas difíceis, a que ela própria não seria capaz de responder. A Sombra fez uma careta.

   — Então, não sabe responder? — interrogou a princesa.

   — Eu sabia tudo isso na minha infância — respondeu a Sombra — e estou certo de que a minha sombra, que vedes ali, em frente à porta, lhe responde muito facilmente.

   — A sua sombra! É de admirar!

   — Não estou bem certo disso, mas julgo que sim, visto que ela me seguiu e escutou durante tantos anos. Somente, Vossa Alteza Real permitir-me-á que chame a sua atenção para um ponto muito particular: esta sombra sente-se de tal forma orgulhosa por pertencer a um homem que, para a encontrar de bom humor, condição necessária para que responda bem, é preciso tratá-la como se fosse um homem.

   — De acordo — disse a princesa.

   E aproximou-se do sábio para lhe falar do Sol, da Lua, do homem sob todos os aspectos; e ele respondia convenientemente e com muito espírito.

   "Que homem tão distinto", pensou, "para ter uma sombra tão sábia! Seria uma bênção para o meu povo, se eu o escolhesse para esposo."

   E a princesa e a Sombra depressa ajustaram o casamento. Mas ninguém o devia saber antes da princesa ter regressado ao seu reino.

   — Ninguém! Nem mesmo a minha sombra — disse a Sombra, que tinha razões para isso.

   Logo que eles chegaram ao país da princesa, a Sombra disse ao sábio:

   — Escuta, meu amigo: sou feliz e poderoso, e vou dar-te uma prova particular da minha benevolência. Habitarás o meu palácio, tomarás lugar a meu lado na carruagem real e receberás cem mil escudos por ano. No entanto, ponho uma condição: é que te deixes qualificar de sombra por toda a gente. Nunca dirás que foste um homem, e, uma vez por ano, quando eu me mostrar ao povo na varanda iluminada pelo sol, deitar-te-ás a meus pés como uma sombra. É ponto assente que vou desposar a princesa. A boda tem lugar esta noite.

   — Mas isso é demais! — exclamou o sábio. — Nunca consentirei nisso; vou esclarecer a princesa e todo o país. Quero dizer a verdade: sou um homem, e tu, tu não passas de uma sombra vestida!

   — Ninguém acreditará em ti: sê razoável, ou chamo a guarda.

   — Vou já ter com a princesa!

   — Mas eu chegarei primeiro e mandar-te-ei prender.

   E a sombra chamou a guarda, que já obedecia ao noivo da princesa, e o sábio foi levado.

   — Estás a tremer! — disse a princesa, quando voltou a ver a Sombra. — O que há? Tem cuidado! Não adoeças no dia da tua boda.

   — Acabo de assistir a uma cena cruel: a minha sombra enlouqueceu. Imagina que se lhe meteu na cabeça que é um homem, e que eu sou a sua sombra.

   — É horrível! Espero que a tenham encarcerado.

   — Sem dúvida; mas receio que nunca mais se restabeleça.

   — Pobre sombra — disse a princesa. — É bem desgraçada. Talvez fosse um benefício tirar-lhe o pouco de vida que lhe resta. Sim, pensando bem, julgo necessário acabar com ela em segredo.

   — É uma resolução medonha — respondeu a Sombra, fingindo que suspirava. — Perco um servidor fiel.

   "Que nobre carácter" — pensou a princesa.

   À noite, toda a cidade estava iluminada. Dispararam-se salvas de artilharia; por toda a parte se ouvia músicas e cantares. A princesa e a Sombra mostraram-se à varanda, e o povo, ébrio de alegria, aclamou-os três vezes.

   O sábio não viu nada, não ouviu nada, porque o tinham matado.

Hans-Christian Andersen
Contos de Andersen
Barcelos, Companhia Editora do Minho, 1959
Adaptação
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